Durante um ano e seis meses viajei sozinho por todo o continente americano. Enfiei-me em vários buracos sem a menor perspectiva de sair deles, passei muitos perrengues, fome, frio e apertos com pessoas mal-encaradas que poderiam ter dado um fim em minha vida.
Cada sufoco que passava, pensava que, o melhor seria mesmo morrer, afinal, pior do que estava não podia ficar. A bandida tinha me acertado o coração ao me separar dos meninos.
Na viagem, apesar de esconder um desejo inconfessável de me matar, acabou me fazendo viajar para dentro de mim mesmo, num processo de auto-conhecimento que me ajudou bastante.
O gosto pelo risco não diminuiu, é verdade, pulava de penhascos no mar, descia rios caudalosos em botes, nadava em mar aberto e corria como um louco pelas estradas, mas em cada lugar que passava, e olha, que eu passei por muitos lugares, aprendi a me relacionar com as pessoas mais humildes e puras. Meus valores mudaram bastante, embora eu nunca tivesse sido metido à besta, apesar de nascer numa classe mais privilegiada e ter visto muitos parentes tratarem empregados como se fossem a ralé, me revoltando por isso.
Foi graças a essas pessoas humildes que eu pude dormir melhor, ser tratado de um resfriado, comer uma comida gostosa, já que no meu cardápio só havia miojo e barras de cereais. Foram eles também que passaram a me dar ânimo para querer continuar a viver, pq, sem exigirem nada em troca, me davam carinho e atenção.
Era duro, ver como as crianças que eu ia encontrando pelo caminho gostavam de mim, enquanto meus próprios filhos me rejeitavam por causa da louca da mãe, mas ao mesmo tempo, isso me fazia perceber, que a vida, de alguma forma, estava querendo me compensar.
Nesse tempo eu não era ateu, ao contrário, acreditava muito em deus, justificava tudo o que me acontecia como se fosse a vontade dele. Acreditava como a maioria, que deus tinha um plano para a minha vida, e como todo mundo, justificava o bem que me acontecia como uma vontade dele e o mal como algum erro que eu tivesse cometido e por isso, estava sendo punido.
Então o tempo passou, depois de 88.000 km, a viagem acabou. De volta ao Brasil, e já sem a mesma folga nas finanças, fiquei preocupado em como faria para começar a arrumar dinheiro, o que iria fazer, já que não queria mais me sentir oprimido em um ambiente de trabalho, recebendo ordens medíocres, de pessoas medíocres. A viagem tinha mudado completamente minha minha cabeça.
Foi quando decidi aceitar um convite para escrever a biografia de um cara conhecido. Não era o que eu pensava fazer para ganhar dinheiro, mas não podia recusar trabalho, além do mais trabalharia na minha casa e com um bom adiantamento para realizar as pesquisas.
Durante 8 meses trabalhei nesta biografia e, quando foi lançada, o resultado foi bastante satisfatório. Depois desse trabalho pintaram muitos outros e também passei a trabalhar como escritor fantasma. Sabem o que é isso? É quando um escritor escreve todo o livro, mas quem assina é o cara que te paga. Vc ganha uma boa grana, mas os holofotes são todos para ele. Como no filme Budapeste.
Passei a ficar conhecido no meio artístico e não demoraram a surgir convites para escrever para TV, Cinema e Teatro. Foi quando conheci minha terceira e última esposa. Uma médica maravilhosa que me analisou de ponta a cabeça e me deu o primeiro diagnóstico de THB. Cheguei a frequentar seu consultório nos primeiros meses, mas depois que nos apaixonamos, ela me indicou outro médico, com quem, aliás, estou até hoje.
Mas não foi tudo assim, tão fácil aceitar um tratamento. Entre a primeira conversa que tivemos, até decidir me tratar seriamente com o meu médico atual, muita água passou por debaixo da ponte. Pelo menos, foram contabilizadas duas tentativas de suicídio e as duas, por causa do filho dela, meu enteado. O sujeito mais mau caráter que eu conheci.
Mas isso vai ficar para o próximo artigo.
Um abraço.
PS: Siga-me no Twitter @diabipolar
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