Dois meses internado foram o suficiente para a minha recuperação. Com um currículo de internação por overdose, seguido de fuga, médicos e enfermeiros ficaram admirados com minha resiliência.
Nesta nova temporada de internação, que por sorte foi em outra clínica, comportei-me bem diferente do que na primeira. Procurei dedicar-me a leitura e a fazer novos "amigos". Como escrevo e crio personagens, comecei a interessar-me por esse universo psicológico, acreditei e acredito que era o que faltava na composição deles.
Conheci muita gente engraçada, sofrida e sensível que, assim como eu, adernava por mares escuros e atormentados sem velas ou motor, e muitas vezes sem um comandante. Poderia escrever muitas linhas, mas o blog perderia sua função. Prefiro emprestar suas histórias para os meus personagens.
De volta a ativa, minha mesa estava acumulava de cartass e e-mails me cobrando os trabalhos assumidos anteriormente, e convites para novos trabalhos. Gozado como acostumei-me a viver sob tensão, acho que viciei-me na fase eufórica. É justamente sob pressão que realizo meus melhores trabalhos. Quando tudo está muito calmo, não rendo igual e a depressão se aproxima mais rápido.
Em duas semanas, entreguei tudo o que estava devendo e comecei a trabalhar em novos projetos, mas faltava saber o mais importante, onde estavam meus filhos. Três meses sem nenhuma notícia, na clínica, só minha esposa me visitou diariamente alterando toda sua rotina, mais ninguém. Não posso reclamar disso, ao longo da vida fui construindo muito mais muros do que pontes e também não sei se gostaria de receber a visita de "amigos" que me veriam como uma "Avis rara"
A primeira coisa que fiz foi ligar pra eles, mas sa mãe impedia-me de falar com eles dizendo que ora estavam na escola, ora, dormindo, ora brincando, ora bolas, como é que alguém pode ser tão insensível assim? Continuei tentando, mas agora para o celular deles, mas sempre dava fora de área ou caixa postal; deixei vários recados e nada. Mandei e-mails, torpedos, cartas registradas e nada. Tomei coragem e fui até o colégio deles, e entçao veio a surpresa. Todos dois disseram que não quweriam me ver ou falar comigo, mas não disseram isso pessoalmente, mandaram recado pelas cooordenadoras. O constrangimento foi muito grande, mas ainda não seria o pior.
O tempo foi passando, 4, 5, 6 meses e eu continuava tentando fazer contato, mas eles não demonstravam qualquer sentimento de querer se aproximar. Pensava em tudo, o que poderia ter feito para que eles mudassem radicalmente de comportamento. O que será que deixei de fazer pelos dois? Estudavam em escola pública e eu leveio-os para uma escola de ponta, onde estão até hoje; coloquei-os em cursos de inglês, futebol, informática, desenho, lutas, natação e o que mais me pediam. A mãe tendo condições de oferecer o mesmo, não oferecia, mas hoje posa como se tudo tivesse oferecido, até mesmo o colégio.
Isso me fazia mal, me jogava pra baixo. Amo os meus filhos, passei com eles a maior arte do tempo da infância de cada um. Fui o pai da praça, da creche, da praia, do colégio, o amigo dos amiguinhos deles. Posso ter me excedido quando mandei o mais velho de volta pra casa da mãe por causa do meu enteado, mas já não via o caçula havia algum tempo. O que será que podia vir além disso?
A resposta veio dois dias depois. Um oficial de justiça me procurou e me convocou a prestar depoimento na DPCA (Delegacia de Proteção ao Menor e ao Adolescente)sob a acusação de maus tratos ao meu filho mais velho.
O impacto foi como murro na cara. Todos ficaram indignados, mas eu ainda assim, justifiquei que era coisa da mãe deles e que tudo se esclareceria.
Fui com meu pai até a delegacia, mesmo ele, um cara que sempre cagou pra mim estava indignado e diante do inspetor disse que eu não merecia estar ali.
Ao ler o conteúdo da acusação, pude ver que constava a assinatura da mãe e o pior que um pai pode ver. Ali constava a assinatura do meu filho me acusando de algo que ele sabe que eu não fiz.
O próprio inspetor confidenciou-me que enquanto ele endossava o que a mãe afirmara em seu depoimento, a megera alisava sua cabeça dizendo que ela estava ali do lado dele.
Defendi-me, mesmo achando surreal estar ali, naquele lugar. Meu pai disse que eu não tinha batido nele, mas que se meu filho fosse o filho dele, ele mesmo já teria batido para ele aprender a ter caráter.
Fui embora daquele lugar sem a certeza do que aconteceria depois. A sensação era de que um punhal estava enterrado em minhas costas. Quis morrer, mas meu pai estava com câncer e dependia de mim para levá-lo para casa; e foi o que eu fiz, mas na volta...
Eu conto depois.
Um abraço.