quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

UM PUNHAL ENTERRADO NAS MINHAS COSTAS ATÉ HOJE

Dois meses internado foram o suficiente para a minha recuperação. Com um currículo de internação por overdose, seguido de fuga, médicos e enfermeiros ficaram admirados com minha resiliência. 
 
Nesta nova temporada de internação, que por sorte foi em outra clínica, comportei-me bem diferente do que na primeira. Procurei dedicar-me a leitura e a fazer novos "amigos". Como escrevo e crio personagens, comecei a interessar-me por esse universo psicológico, acreditei e acredito que era o que faltava na composição deles.  
 
Conheci muita gente engraçada, sofrida e sensível que, assim como eu, adernava por mares escuros e atormentados sem velas ou motor, e muitas vezes sem um comandante. Poderia escrever muitas linhas, mas o blog perderia sua função. Prefiro emprestar suas histórias para os meus personagens.
 
De volta a ativa, minha mesa estava acumulava de cartass e e-mails me cobrando os trabalhos assumidos anteriormente, e convites para novos trabalhos. Gozado como acostumei-me a viver sob tensão, acho que viciei-me na fase eufórica. É justamente sob pressão que realizo meus melhores trabalhos. Quando tudo está muito calmo, não rendo igual e a depressão se aproxima mais rápido.
 
Em duas semanas, entreguei tudo o que estava devendo e comecei a trabalhar em novos projetos, mas faltava saber o mais importante, onde estavam meus filhos. Três meses sem nenhuma notícia, na clínica, só minha esposa me visitou diariamente alterando toda sua rotina, mais ninguém. Não posso reclamar disso, ao longo da vida fui construindo muito mais muros do que pontes e também não sei se gostaria de receber a visita de "amigos" que me veriam como uma "Avis rara" 
 
A primeira coisa que fiz foi ligar pra eles, mas sa mãe impedia-me de falar com eles dizendo que ora estavam na escola, ora, dormindo, ora brincando, ora bolas, como é que alguém pode ser tão insensível assim? Continuei tentando, mas agora para o celular deles, mas sempre dava fora de área ou caixa postal; deixei vários recados e nada. Mandei e-mails, torpedos, cartas registradas e nada. Tomei coragem e fui até o colégio deles, e entçao veio a surpresa. Todos dois disseram que não quweriam me ver ou falar comigo, mas não disseram isso pessoalmente, mandaram recado pelas cooordenadoras. O constrangimento foi muito grande, mas ainda não seria o pior.
 
O tempo foi passando, 4, 5, 6 meses e eu continuava tentando fazer contato, mas eles não demonstravam qualquer sentimento de querer se aproximar. Pensava em tudo, o que poderia ter feito para que eles mudassem radicalmente de comportamento. O que será que deixei de fazer pelos dois? Estudavam em escola pública e eu leveio-os para uma escola de ponta, onde estão até hoje; coloquei-os em cursos de inglês, futebol, informática, desenho, lutas, natação e o que mais me pediam. A mãe tendo condições de oferecer o mesmo, não oferecia, mas hoje posa como se tudo tivesse oferecido, até mesmo o colégio.
 
Isso me fazia mal, me jogava pra baixo. Amo os meus filhos, passei com eles a maior arte do tempo da infância de cada um. Fui o pai da praça, da creche, da praia, do colégio, o amigo dos amiguinhos deles. Posso ter me excedido quando mandei o mais velho de volta pra casa da mãe por causa do meu enteado, mas já  não via o caçula havia algum tempo. O que será que podia vir além disso?

A resposta veio dois dias depois. Um oficial de justiça me procurou e me convocou a prestar depoimento na DPCA (Delegacia de Proteção ao Menor e ao Adolescente)sob a acusação de maus tratos ao meu filho mais velho. 

O impacto foi como murro na cara. Todos ficaram indignados, mas eu ainda assim, justifiquei que era coisa da mãe deles e que tudo se esclareceria.
Fui com meu pai até a delegacia, mesmo ele, um cara que sempre cagou pra mim estava indignado e diante do inspetor disse que eu não merecia estar ali.

Ao ler o conteúdo da acusação, pude ver que constava a assinatura da mãe e o pior que um pai pode ver. Ali constava a assinatura do meu filho me acusando de algo que ele sabe que eu não fiz. 

O próprio inspetor confidenciou-me que enquanto ele endossava o que a mãe afirmara em seu depoimento, a megera alisava sua cabeça dizendo que ela estava ali do lado dele.

Defendi-me, mesmo achando surreal estar ali, naquele lugar. Meu pai disse que eu não tinha batido nele, mas que se meu filho fosse o filho dele, ele mesmo já teria batido para ele aprender a ter caráter.

Fui embora daquele lugar sem a certeza do que aconteceria depois. A sensação era de que um punhal estava enterrado em minhas costas. Quis morrer, mas meu pai estava com câncer e dependia de mim para levá-lo para casa; e foi o que eu fiz, mas na volta...
 
Eu conto depois.

 
Um abraço. 
 
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domingo, 20 de fevereiro de 2011

BIPOLAR X PSICOPATA


Quando casei com minha terceira esposa, achei estranho o filho dela viver trancado no quarto, não querendo estudar e sempre com muito sono, pensei se tratar de uma fase, ou mesmo introversão, timidez, depressão, mas aos poucos fui descobrindo que ele era mesmo um psicopata que chantageava a mãe emocionalmente para conseguir atingir seus mais obscuros intentos.
 
Como pai de dois meninos e com formação acadêmica em Educação Física, já tendo dado aulas para crianças e adolescentes, percebi que alguma coisa estava errada na relação dos dois.  Ela como médica precisava ausentar-se o dia inteiro, só voltando para casa à noite, ele sem regras e sem lei, passava as tardes como bem queria e eu, instalado no escritório dela para trabalhar (achamos melhor morarmos no apartamento dela que era perto do consultório e alugamos o meu), observava a rotina da casa e prudentemente não interferia, pois adolescentes não gostam de ter seu espaço invadido e, afinal de contas eu não era o pai dele.
 
A história deles era a seguinte: o pai do garoto é um irresponsável, diagnosticado como borderline, que não trabalha apesar de ter duas formações acadêmicas e vive às custas da mãe. Ela percebendo a furada em que havia se metido, agüentou calada tudo o que ele fazia e formou-se em medicina. Quando o menino fez 10 anos,  pediu o divórcio. O cara se sentiu traído, na verdade, nem percebera que ela além de formada, já era mestra e doutora e trabalhava com um dos mais renomados médicos. da sua especialidade. O canalha, achando que se omitindo prejudicaria os dois, parou de pagar tudo, nem mesmo a pensão ou plano de saúde para o filho. Ela, muito orgulhosa, nunca pediu nada e mostrou para quem duvidava, que sozinha segurava a barra. Ele, com raiva passou a assediar o filho e a jogá-lo contra a mãe. 
 
Como forma de compensar as ausências por conta do trabalho, o garoto cresceu criado por babás e que, nem sempre, eram as melhores companhias. Com elas, aprendeu a destruir o patrimônio do condomínio onde morava, aprendeu a fumar e interessou-se por drogas. 

Quando cheguei, o quadro era o seguinte, descoberto dois anos depois de nos casarmos: ele dormia tarde da noite, ia mal nos estudos, dormia parte da tarde e a outra parte ficava com “amigos” na banca de jornal da esquina.
 
Um dia viajamos e ele ficou com pai e quando voltamos percebemos que alguém tinha entrado na casa (ele não tinha as chaves). Foi quando descobri, encontrando as pistas que ele deixou, que um chaveiro tinha feito uma cópia da chave, pois ele alegou que a perdera. Dei uma busca em seu quarto e descobri as evidências de que ele estava se envolvendo com drogas.
 
Dali pra frente nossa relação mudou e eu passei a lhe fazer oposição e a controlá-lo na parte da tarde exigindo que ele se ocupasse com algum esporte, aulas de reforço, inglês, música ou o que ele escolhesse e que fosse construtivo. Claro que isso foi conversado e a ordem partiu da mãe, mas ele sabia que a mãe estava sendo orientada por mim. Sozinha ela nunca faria isso. Deste dia em diante fui declarado seu inimigo.
 
Os dias passaram a ser desgastantes, minha produção caíra muito pq agora eu virara babá de um adolescente mimado, até o dia em que ele disse para a mãe que iria embora para morar com o pai. Ela vacilou, mas eu tomei a frente e disse que ele devia ir mesmo morar com o pai, quem sabe assim ele aprendia a diferença entre os dois. O que nem eu, e nem minha esposa contávamos, era que o pai dele, para atingi-la, usaria o próprio filho destruindo-o.
 
Achamos que ele estava instalado na casa do pai e como ele não queria aproximação, deixamos a poeira assentar, até que, para infelicidade deles, eu trabalhei com um roteirista que estava morando exatamente aonde o pai o havia instalado sozinho, com apenas 15 anos. Quando a porta do elevador abriu e ele me viu, gelou, gaguejou e pressionado acabou confessando que estava morando ali. 

Eu contei para minha esposa o que estava acontecendo e ela duvidou, então combinamos de ir visitá-lo. Quando ele abriu a porta ela quase desmaiou. Entramos, e enquanto eles conversavam em um dos cômodos (na verdade era uma quitinete de 20m² dividida por biombos), eu fotografava as condições em que ele vivia.
 
Em menos de uma semana, entramos com uma ação contra o pai, que a esta altura, já o deixara abandonar a escola e nem sabia no que o filho estava envolvido. A decisão da juíza foi de que, ele deveria assumir a formação escolar do filho, tratamento psicológico, vestuário, alimentação, transporte e tudo o quanto se negou a dar a vida toda. 
 
Achamos que isso seria suficiente para ele voltar a morar conosco, compreendendo a péssima escolha que havia feito, mas seu caráter já estava formado e sua índole já mostrara sua pior face. Ele não veio, ficou com o pai e como este não ligava para nada, ele não só continuou nas drogas, como passou a subir morros e a traficar pequenas quantidades para os amigos.
 
Não demorou muito para a casa cair e aos 16 anos fomos chamados para retirá-lo de uma delegacia. Desesperada minha esposa me pediu para aceitá-lo sem criar resistência pq ela faria de tudo para recuperá-lo e contava comigo. Não podia dizer não, afinal eu Tb tenho dois filhos e gostaria que ela os aceitasse se a situação fosse inversa.
 
Com a promessa de que estudaria, se enquadraria na rotina da casa e respeitaria a hierarquia, ele voltou, mas ninguém muda de uma hora para outra. Em pouco tempo minha vida virou um inferno e minha esposa se negava a aceitar que o filho era um mau caráter. 
 
Com a máxima de que, para vencer o inimigo é preciso juntar-se a ele, estrategicamente começou a me defender contra a mãe em questões sem importância, aumentando a tensão e querendo demonstrar uma amizade que não tínhamos. Para mim era inconcebível que um ser humano pudesse ser tão frio a ponto de prejudicar àqueles a quem dizem amar. 
 
Nesse mesmo período, meu filho mais velho, pediu-me para morar conosco e eu deixei, afinal, sentia muito a falta dos dois., e com um morando comigo, talvez o outro viesse em seguida.  Mobiliei o quarto para que coubessem três garotos confortavelmente, para que não houvessem brigas por ciúmes. Mas em pouco tempo descobri que esse foi o meu maior erro, pois ainda não sabia do que meu enteado era capaz. Quando me dei conta, ele estava iniciando meu filho mais velho no mundo das drogas.
 
A primeira providência foi retirar meu filho de casa e mandá-lo novamente morar com a mãe, mas ele não entendeu o que estava acontecendo, negou que tivesse feito algo errado e me desafiou. Dei-lhe algumas palmadas na bunda e no dia seguinte o mandei para a escola com a ordem de que voltaria para a casa da mãe e ponto final. Não sabia que isso teria um desdobramento que me derrubaria. 

Mostrei todas as evidências para a minha esposa de que, seu filho, àão só estava de volta a velha rotina, como tb prejudicava a saúde do meu filho. Ela pediu um tempo para pensar sobre o que faria e este tempo foi o que ele usou para dizer que eu consumia drogas junto com ele. 
 
Por incrível que pareça ela acreditou e, cega, como toda mãe que prefere enfiar a cabeça na terra como um avestruz para não enxergar os defeitos nos seus filhos, acusou-me de ser sempre contra seu filho e perseguí-lo. Um discurso encomendado que eu já sabia quem era o autor.
 
Não me restou mais nada a fazer do que sair de casa e voltar para o meu imóvel. Só que junto comigo veio uma terrível depressão, pois estava longe da mulher que amo e sem poder ver meus filhos que se recusavam em me ver, ou falar comigo, pq para o meu azar, a mãe deles, ao invés de me agradecer por defender a saúde e integridade psíquica dos meninos, preferiu jogar-me contra eles dizendo que eu havia preferido ser o pai do meu enteado e que tinha expulsado eles da minha casa a socos e pontapés. 
 
O resultado disso, foi o afastamento dos meus filhos e 47 comprimidos de Bromazepan misturados com 23 de Rivotril e metade de uma garrafa de Ballantines e um corpo caído no chão da sala.
 
O resto eu conto depois.
 
Um abraço. 
 
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1999 ATÉ 2004 – UMA TRIP MUITO LOUCA POR DENTRO DA MINHA CABEÇA


Durante um ano e seis meses viajei sozinho por todo o continente americano. Enfiei-me em vários buracos sem a menor perspectiva de sair deles, passei muitos perrengues, fome, frio e apertos com pessoas mal-encaradas que poderiam ter dado um fim em minha vida.

Cada sufoco que passava, pensava que, o melhor seria mesmo morrer, afinal, pior do que estava não podia ficar. A bandida tinha me acertado o coração ao me separar dos meninos.

Na viagem, apesar de esconder um desejo inconfessável de me matar, acabou me fazendo viajar para dentro de mim mesmo, num processo de auto-conhecimento que me ajudou bastante.

O gosto pelo risco não diminuiu, é verdade, pulava de penhascos no mar, descia rios caudalosos em botes, nadava em mar aberto e corria como um louco pelas estradas, mas em cada lugar que passava, e olha, que eu passei por muitos lugares, aprendi a me relacionar com as pessoas mais humildes e puras. Meus valores mudaram bastante, embora eu nunca tivesse sido metido à besta, apesar de nascer numa classe mais privilegiada e ter visto muitos parentes tratarem empregados como se fossem a ralé, me revoltando por isso.

Foi graças a essas pessoas humildes que eu pude dormir melhor, ser tratado de um resfriado, comer uma comida gostosa, já que no meu cardápio só havia miojo e barras de cereais. Foram eles também que passaram a me dar ânimo para querer continuar a viver, pq, sem exigirem nada em troca, me davam carinho e atenção.

Era duro, ver como as crianças que eu ia encontrando pelo caminho gostavam de mim, enquanto meus próprios filhos me rejeitavam por causa da louca da mãe, mas ao mesmo tempo, isso me fazia perceber, que a vida, de alguma forma, estava querendo me compensar.

Nesse tempo eu não era ateu, ao contrário, acreditava muito em deus, justificava tudo o que me acontecia como se fosse a vontade dele. Acreditava como a maioria, que deus tinha um plano para a minha vida, e como todo mundo, justificava o bem que me acontecia como uma vontade dele e o mal como algum erro que eu tivesse cometido e por isso, estava sendo punido.

Então o tempo passou, depois de 88.000 km, a viagem acabou. De volta ao Brasil, e já sem a mesma folga nas finanças, fiquei preocupado em como faria para começar a arrumar dinheiro, o que iria fazer, já que não queria mais me sentir oprimido em um ambiente de trabalho, recebendo ordens medíocres, de pessoas medíocres. A viagem tinha mudado completamente minha minha cabeça.

Foi quando decidi aceitar um convite para escrever a biografia de um cara conhecido. Não era o que eu pensava fazer para ganhar dinheiro, mas não podia recusar trabalho, além do mais trabalharia na minha casa e com um bom adiantamento para realizar as pesquisas.

Durante 8 meses trabalhei nesta biografia e, quando foi lançada, o resultado foi bastante satisfatório. Depois desse trabalho pintaram muitos outros e também passei a trabalhar como escritor fantasma. Sabem o que é isso? É quando um escritor escreve todo o livro, mas quem assina é o cara que te paga. Vc ganha uma boa grana, mas os holofotes são todos para ele. Como no filme Budapeste.

Passei a ficar conhecido no meio artístico e não demoraram a surgir convites para escrever para TV, Cinema e Teatro. Foi quando conheci minha terceira e última esposa. Uma médica maravilhosa que me analisou de ponta a cabeça e me deu o primeiro diagnóstico de THB. Cheguei a frequentar seu consultório nos primeiros meses, mas depois que nos apaixonamos, ela me indicou  outro médico, com quem, aliás, estou até hoje.

Mas não foi tudo assim, tão fácil aceitar um tratamento. Entre a primeira conversa que tivemos, até decidir me tratar seriamente com o meu médico atual, muita água passou por debaixo da ponte. Pelo menos, foram contabilizadas duas tentativas de suicídio e as duas, por causa do filho dela, meu enteado. O sujeito mais mau caráter que eu conheci.

Mas isso vai ficar para o próximo artigo.

Um abraço.

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sábado, 19 de fevereiro de 2011

1995 ATÉ 1998 – MAIS UMA PÉSSIMA ESCOLHA COM DOIS LINDOS PRESENTES E O MAIS PROFUNDO POÇO A ME ACOLHER.

Depois de muito tempo sem arriscar novos relacionamentos, escolhi uma mulher do meu trabalho para casar. Ainda impregnado de falsos valores, escolhi uma bem bonita e com um corpo escultural. Em pouco tempo me apaixonei e como todo bipolar, não dei nem tempo de conhecer a pessoa profundamente.

Em um mês apenas, já estava morando junto, com mais dois, estava casado, mais um ano, já era pai do meu primeiro filho, treze meses depois, era pai do segundo e no fim do terceiro ano de relacionamento, antes de completar quatro, o casamento chegava ao fim.

Assim que o meu primeiro filho nasceu, a mãe deles teve o que chamam de depressão pós-parto, aquilo acabou comigo. Falo mãe deles porque não tolero nem chamá-la pelo nome. Se tem algo que eu me arrependa na vida, foi ter conhecido esta pessoa, foi um azar para mim, sobre todos os aspectos e vocês verão o motivo. Pois bem, durante todo o período em que ela estava grávida, reformei o quartinho dele, eu mesmo, sem ajuda. Construí um ambiente que eu mesmo não tinha recebido dos meus pais, mas ela conseguiu jogar um balde de água fria na minha cabeça. Dali pra frente o casamento ficou uma merda.

Quando nasceu o segundo filho, já estávamos forçando uma barra, mas como eu queria muito ser pai e me alegrava muito ver a felicidade do meu avô, agora saindo da cama para passear comigo e com os bisnetos, fui empurrando com a barriga, mas a data de validade já estava com o prazo vencido.

Quando enfim decidi me separar, a infeliz usou as crianças contra mim. Fiquei fragilizado. Meus filhos eram as únicas coisas que me restavam. Pouco tempo depois, meu avô morreria e eu estava literalmente só. Sem ânimo para mais nada, comecei a faltar ao trabalho.

No início, levaram em consideração meus últimos acontecimentos e me deram todas as vantagens que um emprego público federal pode oferecer. Dias em casa para descansar, férias acumuladas, licença prêmio e atestados médicos. Fiquei uns sete meses em casa sem ninguém me aporrinhar. Só queria saber dos meus filhos, mas a bandida sumiu com eles. Quando finalmente os achei, estavam com medo de mim pela quantidade de histórias horríveis que ela contou a meus respeito. Nem posso dizer que tenha inventado tudo, afinal, eu mesmo já relatei aqui o que fazia, mas a forma como fez, foi baixa, covarde, vil.

A cena de ver meus filhos fugindo de mim foi forte demais. O menor chegou a chorar quando me aproximei e o mais velho, que foi o que eu mais convivi, escondeu-se de mim. Aquilo me derrubou. Sai dali arrasado. Fui direto para o trabalho. Invadi uma reunião e disse que estava me demitindo. A diretoria ficou atônita, um disse que eu não podia fazer aquilo, outro que eu precisava me tratar, outro ainda que eu estava atrapalhando e que saísse e esperasse a vez para tratar de assuntos particulares. Resultado. Mandei todo mundo tomar no cú, botei o dedo na cara desse último e disse que o meu assunto particular passara a ser enfiar-lhe a porrada.

Sai dali, passei no RH e disse que estava me demitindo. Próximo passo foi chamar meu advogado, fazer um testamento para garantir os garotos e dar adeus pra vida. Acordei dois dias depois internado em uma clínica psiquiátrica. Nesse período surtei pelo menos mais umas duas vezes. Em uma delas, quebrei um enfermeiro na porrada. Só soube disso depois. Fiquei penalizado e passei a ajudá-lo financeiramente. Sempre fui assim. Na hora da briga eu não paro de bater, mas depois que a pessoa não reage eu paro, fico com pena e até cuido. Lembro que na infância e adolescência, cheguei a cuidar dos ferimentos dos meus adversários por pena. Gostaria de ter encontrado alguém que tivesse dado um fim a isso, mas nunca tive essa sorte.

Como fiquei com medo de ficar naquele lugar pra sempre, dei um jeito de fugir pulando o muro da clínica. Como estava com barba e cabelos compridos, a primeira providência, foi pedir esmolas. Arrumei uns R$ 10,00 e fui direto cortar os cabelos e fazer a barba. Depois fui pra minha casa, falei com o advogado e um médico amigo meu que trataram de resolver os problemas na clínica.

Antes que a demissão se concretizasse, entrei com várias ações trabalhistas que até então não havia entrado por ocupar uma posição de chefia e desenvolvi um projeto para tentar suportar o afastamento das crianças. Em seis meses estava embarcando a bordo de uma pick-up 4X4 em direção ao ponto mais distante ao norte da linha do Equador. Seria uma viagem só de ida, mas o mergulho interior foi tão profundo que quando o pé alcançou o fundo do poço, decidi impulsionar-me de volta à tona.

Mas isso eu só revelo no outro artigo.

Um abraço.

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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

1990 - DEPOIS DA BONANÇA, VEIO UMA TERRÍVEL TEMPESTADE

Como sempre tive características de liderança, não foi difícil adaptar-me o trabalho e em pouco tempo fui convidado para liderar uma equipe. 

Durante todo o tempo em que estive a frente do meu setor, nunca tive maiores problemas com meus subordinados. Procurava ser o mais justo possível, estabelecendo metas e premiações, ninguém estava insatisfeito, a não ser é claro a turma que não gostava de trabalhar, que “matava” algum parente para faltar ao trabalho, que visivelmente explorava a empresa e sobrecarregava os outros funcionários. Para estes eu fui um carrasco implacável. Tinha também os outros chefes de outros setores que tentavam me dar uma rasteira, mas aí entrava o meu temperamento desafiador. Quando percebia que algum deles estava tentando me prejudicar em alguma reunião, imediatamente expunha os defeitos do seu setor, suas limitações como chefe e o desejo externado por vários de seus subordinados em querer trabalhar comigo. Não preciso dizer que arrumei muitos desafetos por causa disso, né?


Enquanto o tempo passava consegui conciliar duas faculdades e mais o trabalho, além dos torneios de lutas que participava, mas nenhuma relação amorosa. Claro que tive várias namoradas, mas a menor possibilidade da relação ficar mais séria, terminava, na minha cabeça, casamentos, sempre seriam como os dos meus pais, sem respeito, com brigas e traições.

Foi quando conheci minha primeira esposa. Uma mulher lindíssima, com um corpo exuberante, mas com o caráter rasteiro. Deixei-me levar pelo exterior e quando me dei conta, estava com um par de chifres na testa com apenas 10 meses de casado. No mesmo período minha avó morreu e meu avô descobriu que estava com câncer. Foi muito punk.

A primeira coisa que fiz foi tentar matá-la, cheguei a sufocá-la com um estrangulamento, mas ao mesmo tempo em que a estrangulava pensava na minha vida atrás das grades. Então fui afrouxando a gravata até que a libertei. Dois dias depois, ela teve a audácia de vir com o amante na minha porta para buscar suas coisas. Cobri o cara de porrada. Ela teve que contratar um caminhão para fazer o frete. O cara hoje é um proeminente juiz que vive na mídia e tem pavor de me encontrar. Já aconteceu de nos encontrarmos casualmente numa estação do Metrô, e ao me ver desesperou-se e se afastou, mas eu o segui sem nada fazer, apenas para vê-lo demonstrar sua covardia. 

Analisando este caso, não posso culpá-la de todo, meu temperamento muitas vezes grosseiro, facilitou o desdobramento das ações contra mim, mas eu não tinha essa compreensão  à época. Achava que a culpa era somente dela. O balanço positivo, é que eu não a matei, e hoje, ela vive feliz com o tal juiz, têm dois filhos, e eu não fui preso.

Depois de perder meus pais, ou melhor, esses eu nunca tive de verdade, perder minha avó foi muito ruim para a minha cabeça e claro, fracassar no primeiro casamento, depois de escolher tanto, também não foi nada bom.

Mergulhei profundamente no meu trabalho desde então e, condenei-me ao exílio afetivo por 5 longos anos. Não tinha mais hora para entrar ou de sair do trabalho, foi o período onde ganhei mais dinheiro e promoções, mas os episódios de depressão começavam a aumentar, sem que ninguém percebesse. 

Pensava sempre no meu avô, que partiria a qualquer momento e me deixaria sozinho, abandonado no mundo, um mundo sem amor, materialista, sem emoção, interesseiro. Tratei de postergar ao máximo o dia de sua partida. Levava-o ao médico, oferecia o melhor em termos de tratamento, não que ele precisasse, mas era a minha forma de contribuir para tê-lo mais tempo ao meu lado. Ainda hoje sinto a sua falta. 

Afirmo com segurança que ele foi meu único e verdadeiro amigo. Era ele quem me levava ao cinema e ao teatro quando eu era criança, era para mim que ele confidenciava seus segredos, suas decepções com meu pai. Um dos melhores programas que gostava de fazer, era pegá-lo para passear, levá-lo ao Jockey, ao cinema, para lanchar. Mas ainda era pouco. 

A minha maior felicidade era ser pai, e sabia que, dar-lhe um bisneto, iria fazê-lo muito feliz. Depois, o equilíbrio humano se baseia em um tripé: trabalho, amor e lazer e se, faltar um destes elementos, é sinal de que algo vai errado. No meu caso faltava um amor.

Cinco anos depois, após muitos namoricos e flertes sem importância, decidi abrir meu coração mais uma vez e o resultado..... 

Eu conto no próximo artigo. 
 
Um abraço.
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

1975 ATÉ 1986 – UMA BOMBA RELÓGIO

Dos 13 aos 24 anos minha vida foi uma grande aventura. Pelo que me lembro, embora minha cabeça não seja mais a mesma, por causa de todos os remédios que tomei e dos apagões que tive, tenho contabilizeado dezenove entradas no pronto-socorro. 


Quebrei vários dedos da mão, braço, só na cabeça tenho 14 pontos. fui atropelado uma vez, pulei da varanda do primeiro andar com um guarda-chuva aberto, e quebrei a perna, tenho várias cicatrizes de cortes nas mãos e nos dedos, feitos com facas, canivetes, cacosde vidro, pulando muros, fugi de vigias de colégios que dispararam tiros de sal contra mim, dei tiro com espingarda de chumbinho na direção da cabeça de amigos, só para mostrar minha perícia tirando seus chapéus, no sítio que meus avós tinham, nunca errei um tiro, mas eles só ficavam sabendo disso depois, briguei com muitos motoristas de táxi, trocadores de ônibus, seguranças de boate, fui expulso de duas cidades em Minas Gerais,  Cataguazes e Leopoldina.

Enfrentei assaltantes e me atraquei com pelo menos dois deles, pulei de ônibus em movimento, peguei carona pendurado em traseira de caminhão, pulei da pedra do Arpoador, nadei em rio caudaloso, fiz racha com o carro do meu pai, sem ele saber, pulei o portão do Maracanã várias vezes para assistir aos jogos, fugi da polícia no Maracanã por brigar com a torcida adversária, penetrei festas, fui proibido de entrar em várias boates, briguei dentro do bondinho do Pão de Açúcar, namorei muitas garotas, magoei a maioria delas, impliquei e perturbei a vida de um monte de garotos e garotas, hoje chamam isso de Bullying, fui suspenso várias vezes, cansei de comer biscoito, chocolate, pão e tudo que me desse vontade nos supermercados sem pagar, logicamente, viajei sozinho para outro Estado e só avisei quando cheguei lá depois de 3 dias, isso numa época em que grassava no RJ o seqüestro de garotos de classe média, viajei para os Estados Unidos e roubei tantas camisas de malhas e bermudas que, até hoje, por incrível que pareça, ainda tenho peças novas.

Ufa!!! Chegar até aqui, pode parecer bacana para alguns, por causa das aventuras, mas me trouxeram muitas marcas que eu nunca mais conseguirei apagá-las. Sobrevivi, mas não sei como e cheio de seqüelas. 

De tudo o que fiz em excesso, me arrependo. Estive perto da morte muitas vezes. Numa das vezes, pensei em pular da janela do meu quarto no oitavo andar. Fiquei em pé olhando para baixo, segurando nos trincos, as janelas abriam para o lado de fora, mas desisti no último momento. Fiquei com medo de não morrer e ficar imprestável. Vi amigos morrerem em brigas e rachas, outros apanharem muito e ficarem marcados pela perda de uma função motora ou a perda de membros, fui amado e odiado, e ainda me lembro de cada um que incomodei. Não consegui me desculpar com todos, mas tive a sorte de encontrar uma garota, que sofreu na minha mão, e pedi tantas desculpas que ainda hoje acho que não são suficientes. Ela me perdoou e eu retribui o carinho transformando-a em uma personagem de um dos meus livros.

É claro que eu não fiz isso tudo sozinho, sempre tinha alguém do lado, algum amigo tão louco quanto eu. Não conto nenhuma dessas histórias com alegria, muito embora, apesar de me arrepender dos excessos, todas elas tenham servido para me ensinar alguma lição, ainda que de forma enviesada. Foi assim, por exemplo, que parei de brigar na rua. 

Era um domingo de sol, eu tinha 24 anos e acabava de chegar da praia e não conseguia entrar com o carro na garagem porque havia um carro estacionado bem na porta da casa, onde eu morava com meus avós. Ao lado de casa, tinha um restaurante e eu raciocinei que o cara só poderia estar lá. Pedi ao garçom para localizar o dono, mas ele me disse que o dono não estava lá, o que era uma descarada mentira,. Das duas uma, ou o garçom nem perguntou, ou então o cara nem esquentou a cabeça. 

Determinado que estava, comecei quebrando os faróis e as lanternas com chutes. O cara saiu do restaurante me xingando e aí começou o barraco. Até hoje me lembro da cena. Enquanto o socava, minha avó chorava no portão me pedindo para parar, a mulher dele gritava com uma criança de colo me pedia pra parar e ele já sem forças não esboçava mais reação. Aos poucos fui parando de socá-lo até que o larguei sobre o capô do carro. Fiquei muito mal com aquela cena, muito arrependido mesmo. Tão arrependido que acabei levando-o para a emergência de um hospital.

Sim, era isso o que acontecia comigo quando eu percebia o estrago que tinha feito. Algumas brigas no tempo de colégio terminavam comigo passando gelo no rosto dos adversários. Nunca mais briguei depois deste episódio e prometi a minha avó que nunca mais a faria chorar. Eu amava muito minha avó. Por sorte o cara deixou por isso mesmo, mas fiz questão de pagar os faróis e as lanternas do carro dele. Os tempos eram outros. Hoje estaria preso respondendo a processos.

Tudo isso acontecia, se repetia e eu continuava achando que não tinha problemas. Nunca agi de forma intencional, premeditada, nunca provoquei uma briga, mas também nunca fiz nada para impedir que ela acontecesse. Não sabia por que agia assim, mas uma vez provocado, partia para a ignorância. Para cada adversário eu projetava a imagem de algum desafeto e entre eles figurava meu pai. Por muitos anos tentei justificar meu comportamento pela ausência dele, pelo abandono de casa e pelos prejuízos materiais que nos provocou, mas não o odiava, amava-o muito, sua figura misteriosa ainda me encantava, afinal, os erros que apareciam mais gritantes eram os da minha mãe com os seus desequilíbrios e excessos.

Cresci solto pelas ruas, às leis quem fazia era eu. Obedecia às regras, menos se elas me prejudicassem ou prejudicassem alguém. Não acatava ordens medíocres e se visse alguém que deveria dar o exemplo fazer algo errado, chamava a atenção, mesmo se fossem policiais, aliás, principalmente se fossem os “homens da lei”.

Depois da promessa de não brigar mais, decidi desonerar meus avós e fui procurar um bom trabalho. Antes, só arrumava pequenos serviços, meus avós eram abastados e não queriam que eu trabalhasse e como todo adolescente que gosta de uma moleza, me dedicava à pratica do surf, jiu-jitsu, peladas nos campinhos espalhados pela cidade e aos estudos. Isso era uma coisa que eu tinha muito bem fixado na minha cabeça. Podia ser pobre, não dar pra nada na vida, mas burro eu não seria nunca. Sempre considerei que se tivesse uma bagagem cultural, conhecimentos e formação acadêmica, se por acaso, algum dia, chegasse ao extremo de virar um mendigo, alguém certamente me descobriria e me daria uma oportunidade. Igual ao cara que descobriram nos EUA que era mendigo, mas tem uma voz de radialista fenomenal.

Nunca repeti o ano escolar, me formei em duas faculdades e trabalhei em uma grande empresa por 20 anos, até chutar o pau da barraca, mas isso será o meu próximo artigo.

Gostaria de ler os comentários de vocês, saber que estou sendo lido, ouvir palavras de apoio.

Um abraço.
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

1972 - O PRIMEIRO PENSAMENTO RUIM


Lembro que a crise na minha casa estava chegando a um nível insuportável. Meu pai brigava com minha mãe, por causa dos furtos que ela cometia em sua carteira de dinheiro, sempre que  estava no banho, e ela brigava com ele, por causa das amantes que arrumava. A falta de respeito era total, mas precisavam manter as aparências para os vizinhos. Não se esqueçam que estamos falando de uma época, onde ser separada ou desquitada, era como ser portadora do vírus HIV.

O estresse psicológico chegou a tanto, que um dia, ela acabou surtando. Fiquei horrorizado com a cena. O descontrole era tanto que, o que quer que fosse que aparecesse ao alcance de suas mãos, era arremessado em direção ao meu pai. A casa foi sendo destruída aos poucos. Vasos, bibelôs, esculturas, quadros, espelhos, tudo era arremessado contra ele. Eu estava ali, mas era como se não me vissem. Ninguém cogitou que eu poderia ser acertado e eu não conseguia me mexer. Então ela desfaleceu. Não demorou muito e dois homens fortes vestidos de branco entraram na minha casa, chamados por meu pai e a enrolaram em uma camisa de força e a levaram embora. Naquele momento, esperei que meu pai me esclarecesse alguma coisa, mas depois que os homens a levaram, a única coisa que ouvi, foi: "Preciso saber onde vou deixar você". Assim mesmo, com essa tranqüilidade.

Sempre fui ansioso e elétrico, como diziam alguns, ou hiperativo e disrítmico, como diziam outros, enfim, cada um escolhia o adjetivo que queria para apontar o meu comportamento bipolar, mas dessa vez, não consegui fazer nada, não tinha a menor noção do que ele queria dizer com aquela frase. "Como assim, me deixar?" Pensei. "Pra onde levaram minha mãe?" Questionava internamente.

Passados dois dias, fui internado em um colégio. Entrei no meio do ano letivo sem conhecer ninguém. Meus amigos haviam ficado para trás. Eu só tinha 10 anos e a sensação de abandono foi indescritível. Não sabia onde estavam minha mãe e meus avós que eu amava tanto, cheguei a pensar que eles sabiam onde eu estava, mas não quiseram ficar comigo,  e meu pai, que até então eu amava, simplesmente me virou as costas numa atitude covarde. O mito do herói estava ruindo.

A primeira noite foi horrível. O dormitório era enorme e comprido, cheio de camas e meninos que eu não conhecia, e depois que o inspetor que tomava conta se certificou que todos estavam dormindo, saiu. Um grupo imediatamente se levantou e começou a fazer bagunça. Fiquei com muito medo e chorei baixinho para não chamar a atenção.

Na manhã seguinte, depois de uma noite mal dormida e de mau-humor, achando que minha vida tinha dado errado, pensei em fugir daquele lugar, depois conclui que fugir não me levaria a lugar nenhum, o certo a fazer era me matar. Antes do ônibus que levava os internos para o colégio chegar, fiquei elaborando um plano que tirasse a minha vida sem me causar dor. Sempre tive medo da dor física. Tinha que ser algo menos traumático para mim, caso não desse certo. Enquanto pensava, um dos internos, achando que podia fazer o que quisesse comigo porque eu era um novato, decidiu me perturbar. Acho que isso foi o que mudou a minha história naquele momento. Na minha frente eu só enxergava o culpado pela minha vida ter virado de cabeça para baixo. Bati tanto naquele garoto que tive que ser puxado pelos cabelos para soltá-lo. Naquela época eu já tinha conhecimento de lutas de solo, pois meu avô me levava para a academia de jiu-jitsu de um amigo no Centro.

Fiquei de castigo, mas recuperei a auto-estima. O castigo era duro. Não poderia ir para casa no fim de semana, mas e daí? Se pudesse ir, meu pai não me buscaria mesmo. Bom, depois desse dia, ganhei o respeito dos demais internos e gostei daquela sensação, no entanto, o que era para ter sido apenas uma reação de auto-defesa, tornou-se rotina. Os mais velhos e mais antigos no internato decidiram criar um clube da luta e eu fui seduzido a participar em troca de algumas regalias. Confesso que  minha vida melhorou muito depois desse episódio. Não me faltavam mais biscoitos, sucos, figurinhas, revistas e o que mais eu quisesse, mas em compensação, ficava no colégio nos finais de semana, na maioria das vezes e sozinho. Só voltei a ver meu pai um mês depois, quando o diretor do colégio mandou chamá-lo porque não aguentava mais me colocar de castigo dizendo que iria me expulsar.

Meus avós o pressionaram a resolver o problema da minha mãe e o meu. Foi quando eu descobri que eles também não sabiam de nada. Mas minha cabeça havia mudado bastante. Embora quisesse ficar com eles, não queria mais voltar para casa. O colégio interno se tornou o meu mundo. Ali eu era respeitado, temido e amado. O amor vinha das cozinheiras que me tratavam melhor do que meus pais. Como a chance de ir para a casa dos meus avós nos finais de semana não era uma garantia, e, para a casa dos meus pais só me deixava infeliz, comecei a administrar meus finais de semana. Se meus pais me garantissem a ida para os meus avós eu não brigava, mas se não garantiam, tratava de arrumar uma briga, só para ficar de castigo. Assim, eu fiquei interno até meus 13 anos.

Durante toda a adolescência acalentei o sonho de ir morar com meus avós, mas sempre fui impedido pela minha mãe que continuava me usando como moeda de troca para conseguir alguma vantagem financeira deles, toda vez que meu pai sumia de casa com uma amante. Foi nesse tempo que pude perceber o quanto meus pais se mereciam e o quanto se pareciam. Não esqueço que quando ela voltou pra casa depois da internação, não fez a menor questão de que ele me tirasse do internato. Para ela era mais cômodo que eu ficasse por lá mesmo. Até hoje, ela ainda é assim, bastante egoísta, e ele também não havia mudado em nada, nem com a morte batendo à sua porta. Foi o que me fez constatar, que os canalhas também envelhecem, passam a aparentar fragilidade, mas continuam sempre canalhas. 

A manutenção daquele casamento de fachada só serviu para me causar ainda mais problemas psicológicos., contudo, apesar de hoje, me referir a eles desta forma, nunca, com toda a revolta, os desrespeitei com xingamentos ou agressões. Só não esperava mais virem me bater, antes, corria pra rua e depois negociava a volta, muitas vezes, ia parar na casa dos meus avós. 

Como sempre fui ligado aos esportes, não me aproximei das drogas ou do álcool., pelo menos não com frequência, como rotina de vida. Experimentei maconha só com 20 anos e a sensação foi tão ruim que todas as outras vezes que tentei fui desencorajado pelos usuários mais  experientes. Com relação ao álcool,  fazia tantas exigências a mim mesmo que acabei não me tornando um apreciador como a maioria das pessoas, se bem que eu acho que a maioria das pessoas são alcoolatras em diferentes níveis.  Cervejas, só se estivessem estupidamnte geladas, quase congeladas, como as chances de isso acontecer em uma cidade com temperaturas elevadas é quase impossível, pouco bebia. Vinhos, só os suaves, tintos e doces, o que não me torna um enólogo, destilados, só em casamentos, batizados, ou recepções e mesmo assim, duas doses sempre foram suficientes, o resto eu não aguento nem o cheiro.

Sempre me preocupei muito com a imagem que todos fariam de mim por ter pais tão desajustados, fugia dos rótulos, talvez por isso, tenha passado a ser meu pior adversário, mas também o meu próprio educador.

Então veio a adolescência e junto com ela, os excessos, mas isso vai ficar para a  próxima vez que eu vier aqui, espero que seja amanhã, se eu conseguir essa disposição, vou avançar até meus 24 anos.

Gostaria de ler os comentários de vocês, saber que estou sendo lido, ouvir palavras de apoio.

Um abraço.
 
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

12/01/1962 - AQUI COMEÇA A MINHA HISTÓRIA


Sou fruto de um casal egoísta que apresenta em seu histórico familiar, casos de bipolaridade de grau I  e II e esquizofrenia.

Na verdade, não era para eu ter nascido, outros antes de mim, foram abortados, eu mesmo só escapei por sorte, ou terá sido a falta dela que me trouxe para este mundo estranho? Até hoje não consegui responder esse questionamento.

Vou tentar ser breve ao falar do meu histórico familiar, começando pela minha mãe, Helena. Seus pais casaram-se e tiveram 12 filhos. Meu avô Oscar, era um homem brilhante, botânico reconhecido mundialmente celebrado em livros e com o nome imortalizado em uma aléa no Jardim Botânico do RJ, mas também instável emocionalmente. 

Uma história dele que nunca esqueci e que minha mãe me contou quando eu ainda era uma criança, relata que ele ouvia vozes e, achando que eram ladrões, saia com um enorme facão atrás dos "bandidos" no imenso casarão em que moravam no Cosme Velho.

Minha avó, Zalina, era uma parva, pouco me lembro dela, não fez nada que merecesse destaque, a não ser, deixar que os filhos e netos a humilhassem e a tratassem mal para depois desabar em crises de depressão.

Meus onze tios ou eram bipolares ou esquizofrênicos. Hoje, lembrando o que fizeram enquanto eu era garoto, me espanto, ao mesmo tempo em que sinto o quanto devem ter sofrido com os seus problemas psíquicos. 

Um deles, Aloísio, certa vez, perdeu as chaves de casa e decidiu entrar pela janela do banheiro. Nada demais se ele não morasse no 8º andar e o acesso fosse somente pela clarabóia. Morreu deprimido com um cocktail de comprimidos e álcool. 

O mais engraçado de todos era Henrique, não conseguia se estabilizar economicamente e emocionalmente e viveu sua vida com mulheres sempre 20 anos mais velhas que o sustentavam. Morreu de enfisema pulmonar bolhoso. Fumava 2 maços por dia do forte cigarro Continental e, ainda por cima, sem filtro. 

Sílvia e Glaucia eram queridas, mas igualmente perturbadas, tanto que casaram e foram amantes do mesmo homem e com ele tiveram 4 filhos. Morreram esquecidas pelos filhos e netos. 

Nancy era Procuradora do Estado, mas seu hobby predileto era defecar no acento dos vasos sanitários dos banheiros dos irmãos. Lembro que meu tio Nilson a escorraçou de sua casa quando foi o escolhido da vez. Morreu sozinha, nenhum irmão foi ao seu enterro.

Por falar no meu tio Nilson, sua mania era limpar toda a casa atapetada com as mãos. Todos os dias ,ele passava horas catando pequenas sujeiras com os dedos, não importava se haviam visitantes em sua casa. Morreu demente, depois de desenvolver Alzheimer. 

Hélio foi o mais proeminente, era um delegado federal, mas tão instável quanto os irmãos, teve várias esposas e amantes, mas curiosamente só um filho. Morreu também de enfisema e sozinho, o único filho não compareceu ao enterro. 

Os outros eu não conheci, já haviam morrido quando eu nasci e pouco ouvi sobre eles, mas não duvido nada que o fim de cada um, tenha sido tão triste quanto dos irmãos citados.
 
Minha mãe é uma pessoa egoísta e desequilibrada. Negociou meu aborto com a minha avó paterna, dizendo que só me deixaria nascer se ela pagasse as despesas e o sustento. Descontava seus episódios de mau humor por causa da bipolaridade de grau I, espancando a mim e a minha irmã com cintos, chicotes, cabos de vassoura e até arremessando pratos. Carrego muitas marcas no corpo e na alma por conta disso. Não falo com ela fazem 10 anos. Não agüento nem ouvir a voz e sempre que me vem alguma lembrança, sempre ruim, fico muito mal. São as piores lembranças possíveis e que ao longo desta jornada irei partilhar com cada um de vocês.

Do lado paterno as notícias são um pouco melhores, embora algumas experiências tenham sido terríveis. Minha avó, Maria, era bipolar de grau II, às vezes sobrava um esporro aqui, outro ali, mas no geral eu a amava muito e ainda hoje sinto sua falta. Foi a mãe que eu não tive e só não foi mais, porque a mãe verdadeira por ciúmes me impediu de conviver com ela.

Meu avô, José, sofria de depressão, e seu caso se agravou quando meu pai lhe aplicou um golpe que o levou para a cama e nunca mais se recuperando. Fui o seu melhor amigo e ele o meu. Também sinto muito a sua falta. Com todos os percalços convivi com eles até meus 8 anos, depois disso fui encerrado em um colégio interno e só sai de lá aos 13. Depois fui morar com eles aos 19 e ficamos juntos até eu sair para casar aos 28. Acho que todo esse tempo me salvou de cometer um desatino, mas em compensação a saudade deles não me deixa sair dessa tristeza que sempre me acompanha.

Meu pai tinha um irmão, vou tratá-lo por Júnior, não sei se ele morreu nunca mais o vi desde a morte do meu avô em 1998, mas era um imbecil ou idiota dentro da classificação psiquiátrica para QI's. Meu asco por ele nasceu quando ainda um menino, acho que devia ter uns 5 ou 6 anos e estávamos no cinema assistindo ao clássico  de Walt Disney, "Branca de Neve e os Sete Anões", quando então pedi para ir ao banheiro e ele me acompanhou e começou a me bulinar, era fixado no meu pênis, mas nunca fez mais nada além de se prestar a me levar ao banheiro. Como aquilo era novo pra mim e ele dizia que era um segredo e me ameaçava se contasse, fiquei com medo e com vergonha, escondi isso de todos e de mim mesmo, até que fui morar definitivamente com meus avós aos 19 anos. Essa história estava entalada na minha garganta. Depois dos 8 anos, ele nunca mais tentou nada, mas eu não esqueci. Um dia, estávamos a sós e eu puxei o assunto., ele ficou com medo, mas eu dei a entender que não valorizava o assunto, só queria saber os detalhes, pois não me lembrava muito bem de tudo. Quando ele se sentiu a vontade e relatou seu comportamento nojento, enchi-lhe a cara de porrada e disse que isso era um segredo só nosso e que se alguém descobrisse o motivo dos machucados eu encheria sua cara de porrada outras vezes.

Resta meu pai, Fernando, o cara mais filho da puta que eu já conheci na vida. Egoísta ao extremo, não quis casar com minha mãe, só o fez forçado pelos meus avós e mesmo assim, obrigou minha mãe a abortar duas vezes, quer dizer três, só que na minha vez ela negociou a minha gravidez com a minha avó. Incapaz de dar carinho e atenção para mim, comparecia com o básico e sumia de casa as sextas, só reaparecendo na segunda.

Por causa dessa vida instável cheia de altos e baixos, uma hora jurando amor para minha mãe, outra desfilando com a amante na porta de nossa casa, uma hora oferecendo todo o conforto, noutra deixando-nos passar necessidades, vi minha família se fragmentando e o esteio eram só os meus avós.

 
Cresci desconfiado de que alguma coisa de muito ruim envolvia  a minha história, mas não stinha certeza de nada, faltavam muitas peças para montar esse terrível quebra-cabeça, até que, há dois anos, descobri todo o meu passado. Todas as peças que faltavam,surgiram e se encaixaram.  Meu pai estava hospitalizado, mas ninguém se apresentava para cuidar dele, ninguém o visitava, nem mesmo sua companheira. Então me fiz presente e passei a cuidar de tudo para tentar lhe dar um pouco de dignidade no fim da vida, até mesmo  suas fezes eu limpei.

Foi quando do nada, ele começou a me contar sobre a sua vida, sem poupar-me os detalhes  mais sórdidos. Curioso com o relato frio que ele me fazia, parei minha vida e me internei junto com ele. Não ia mais para casa, queria ouvir tudo o que ele tinha a dizer. Talvez tivesse sido melhor para ambos se eu não ouvisse. No fim do quinto dia eu já não agüentava mais olhar para ele. Liguei para a sua companheira, afinal era ela quem deveria cuidar de tudo e disse que precisava me afastar. Nunca mais o vi e sempre que me lembro, sinto raiva.

Por hoje finalizo. Não estou me sentindo bem. Meus pensamentos estão para baixo, amanhã ou outra hora eu volto e falo um pouco da minha infância. Lembranças que só agora me mostram o quanto eu sofria e que só pioraram meu quadro por não ser diagnosticado e tratado.

Gostaria muito que vocês conversassem comigo. Acredito que isso me ajudará a enfrentar essa jornada e a me soltar mais.

Um abraço.
 
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