quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

1972 - O PRIMEIRO PENSAMENTO RUIM


Lembro que a crise na minha casa estava chegando a um nível insuportável. Meu pai brigava com minha mãe, por causa dos furtos que ela cometia em sua carteira de dinheiro, sempre que  estava no banho, e ela brigava com ele, por causa das amantes que arrumava. A falta de respeito era total, mas precisavam manter as aparências para os vizinhos. Não se esqueçam que estamos falando de uma época, onde ser separada ou desquitada, era como ser portadora do vírus HIV.

O estresse psicológico chegou a tanto, que um dia, ela acabou surtando. Fiquei horrorizado com a cena. O descontrole era tanto que, o que quer que fosse que aparecesse ao alcance de suas mãos, era arremessado em direção ao meu pai. A casa foi sendo destruída aos poucos. Vasos, bibelôs, esculturas, quadros, espelhos, tudo era arremessado contra ele. Eu estava ali, mas era como se não me vissem. Ninguém cogitou que eu poderia ser acertado e eu não conseguia me mexer. Então ela desfaleceu. Não demorou muito e dois homens fortes vestidos de branco entraram na minha casa, chamados por meu pai e a enrolaram em uma camisa de força e a levaram embora. Naquele momento, esperei que meu pai me esclarecesse alguma coisa, mas depois que os homens a levaram, a única coisa que ouvi, foi: "Preciso saber onde vou deixar você". Assim mesmo, com essa tranqüilidade.

Sempre fui ansioso e elétrico, como diziam alguns, ou hiperativo e disrítmico, como diziam outros, enfim, cada um escolhia o adjetivo que queria para apontar o meu comportamento bipolar, mas dessa vez, não consegui fazer nada, não tinha a menor noção do que ele queria dizer com aquela frase. "Como assim, me deixar?" Pensei. "Pra onde levaram minha mãe?" Questionava internamente.

Passados dois dias, fui internado em um colégio. Entrei no meio do ano letivo sem conhecer ninguém. Meus amigos haviam ficado para trás. Eu só tinha 10 anos e a sensação de abandono foi indescritível. Não sabia onde estavam minha mãe e meus avós que eu amava tanto, cheguei a pensar que eles sabiam onde eu estava, mas não quiseram ficar comigo,  e meu pai, que até então eu amava, simplesmente me virou as costas numa atitude covarde. O mito do herói estava ruindo.

A primeira noite foi horrível. O dormitório era enorme e comprido, cheio de camas e meninos que eu não conhecia, e depois que o inspetor que tomava conta se certificou que todos estavam dormindo, saiu. Um grupo imediatamente se levantou e começou a fazer bagunça. Fiquei com muito medo e chorei baixinho para não chamar a atenção.

Na manhã seguinte, depois de uma noite mal dormida e de mau-humor, achando que minha vida tinha dado errado, pensei em fugir daquele lugar, depois conclui que fugir não me levaria a lugar nenhum, o certo a fazer era me matar. Antes do ônibus que levava os internos para o colégio chegar, fiquei elaborando um plano que tirasse a minha vida sem me causar dor. Sempre tive medo da dor física. Tinha que ser algo menos traumático para mim, caso não desse certo. Enquanto pensava, um dos internos, achando que podia fazer o que quisesse comigo porque eu era um novato, decidiu me perturbar. Acho que isso foi o que mudou a minha história naquele momento. Na minha frente eu só enxergava o culpado pela minha vida ter virado de cabeça para baixo. Bati tanto naquele garoto que tive que ser puxado pelos cabelos para soltá-lo. Naquela época eu já tinha conhecimento de lutas de solo, pois meu avô me levava para a academia de jiu-jitsu de um amigo no Centro.

Fiquei de castigo, mas recuperei a auto-estima. O castigo era duro. Não poderia ir para casa no fim de semana, mas e daí? Se pudesse ir, meu pai não me buscaria mesmo. Bom, depois desse dia, ganhei o respeito dos demais internos e gostei daquela sensação, no entanto, o que era para ter sido apenas uma reação de auto-defesa, tornou-se rotina. Os mais velhos e mais antigos no internato decidiram criar um clube da luta e eu fui seduzido a participar em troca de algumas regalias. Confesso que  minha vida melhorou muito depois desse episódio. Não me faltavam mais biscoitos, sucos, figurinhas, revistas e o que mais eu quisesse, mas em compensação, ficava no colégio nos finais de semana, na maioria das vezes e sozinho. Só voltei a ver meu pai um mês depois, quando o diretor do colégio mandou chamá-lo porque não aguentava mais me colocar de castigo dizendo que iria me expulsar.

Meus avós o pressionaram a resolver o problema da minha mãe e o meu. Foi quando eu descobri que eles também não sabiam de nada. Mas minha cabeça havia mudado bastante. Embora quisesse ficar com eles, não queria mais voltar para casa. O colégio interno se tornou o meu mundo. Ali eu era respeitado, temido e amado. O amor vinha das cozinheiras que me tratavam melhor do que meus pais. Como a chance de ir para a casa dos meus avós nos finais de semana não era uma garantia, e, para a casa dos meus pais só me deixava infeliz, comecei a administrar meus finais de semana. Se meus pais me garantissem a ida para os meus avós eu não brigava, mas se não garantiam, tratava de arrumar uma briga, só para ficar de castigo. Assim, eu fiquei interno até meus 13 anos.

Durante toda a adolescência acalentei o sonho de ir morar com meus avós, mas sempre fui impedido pela minha mãe que continuava me usando como moeda de troca para conseguir alguma vantagem financeira deles, toda vez que meu pai sumia de casa com uma amante. Foi nesse tempo que pude perceber o quanto meus pais se mereciam e o quanto se pareciam. Não esqueço que quando ela voltou pra casa depois da internação, não fez a menor questão de que ele me tirasse do internato. Para ela era mais cômodo que eu ficasse por lá mesmo. Até hoje, ela ainda é assim, bastante egoísta, e ele também não havia mudado em nada, nem com a morte batendo à sua porta. Foi o que me fez constatar, que os canalhas também envelhecem, passam a aparentar fragilidade, mas continuam sempre canalhas. 

A manutenção daquele casamento de fachada só serviu para me causar ainda mais problemas psicológicos., contudo, apesar de hoje, me referir a eles desta forma, nunca, com toda a revolta, os desrespeitei com xingamentos ou agressões. Só não esperava mais virem me bater, antes, corria pra rua e depois negociava a volta, muitas vezes, ia parar na casa dos meus avós. 

Como sempre fui ligado aos esportes, não me aproximei das drogas ou do álcool., pelo menos não com frequência, como rotina de vida. Experimentei maconha só com 20 anos e a sensação foi tão ruim que todas as outras vezes que tentei fui desencorajado pelos usuários mais  experientes. Com relação ao álcool,  fazia tantas exigências a mim mesmo que acabei não me tornando um apreciador como a maioria das pessoas, se bem que eu acho que a maioria das pessoas são alcoolatras em diferentes níveis.  Cervejas, só se estivessem estupidamnte geladas, quase congeladas, como as chances de isso acontecer em uma cidade com temperaturas elevadas é quase impossível, pouco bebia. Vinhos, só os suaves, tintos e doces, o que não me torna um enólogo, destilados, só em casamentos, batizados, ou recepções e mesmo assim, duas doses sempre foram suficientes, o resto eu não aguento nem o cheiro.

Sempre me preocupei muito com a imagem que todos fariam de mim por ter pais tão desajustados, fugia dos rótulos, talvez por isso, tenha passado a ser meu pior adversário, mas também o meu próprio educador.

Então veio a adolescência e junto com ela, os excessos, mas isso vai ficar para a  próxima vez que eu vier aqui, espero que seja amanhã, se eu conseguir essa disposição, vou avançar até meus 24 anos.

Gostaria de ler os comentários de vocês, saber que estou sendo lido, ouvir palavras de apoio.

Um abraço.
 
PS: Siga-me no Twitter  @diabipolar

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