segunda-feira, 7 de março de 2011

UM POUCO DA HISTÓRIA DA EGOÍSTA DA MINHA MÃE


Nascida em um lar severo, minha mãe é o que se pode chamar de menina bem assanhada para a sua época. Nada demais, se o canalha por quem se apaixonou não fosse o meu pai. Qualquer outra pessoa mais equilibrada perceberia a furada em que estava se metendo ao se juntar com um cara que, trazia como único trunfo no currículo, os pais. O resto era queimação de filme geral. O cara não gostava de trabalhar, andava em más companhias, engravidava as moças e depois as obrigava a abortar e já experimentara drogas. Podiam chamá-lo de cafajeste sem medo de errar.

No entanto, por uma triste e infeliz combinação de fatos, os dois se apaixonaram e decidiram construir uma história bastante acidentada, onde as vítimas foram sempre os parceiros escolhidos e os filhos nascidos ou fecundados.

Não importava nada para minha mãe, somente meu pai e por ordem dele e anuência dela, perdi dois irmãos que foram abortados, apenas porque eles decidiram que seria assim. Minha irmã, como disse antes, escapou da sentença por causa da minha avó e eu, por causa do meu avô, mas para que fique bem claro que isso não foi uma fantasia criada pela minha cabeça, tive acesso a carta que ela escreveu para minha avó ameaçando me abortar se ela não ajudasse financeiramente.

Atenção, porque não estou falando de uma favelada, sem eira, nem beira, mas de uma garota de classe média, casada com um cara de classe média alta, portanto, ambos com condições de tocarem sozinhos a família que decidiram constituir.

Dele eu já falei, mas talvez tenha faltado acrescentar que enquanto minha mãe estava grávida de mim, até dois meses antes de eu nascer, ele mantinha com os amigos um apartamento para suas orgias, distante apenas dois quarteirões de onde morava.

Por conta da displicência, do descaso e do egoísmo dela, tive anemia profunda. Não me alimentava direito e para tudo ela me entupia de antibióticos. Só quando meus avós descobriam a forma como nos tratavam é que atuavam, levando-nos aos melhores médicos e nos oferecendo todo o conforto.

Foi por seu amor doentio que acabou surtando e sendo covardemente internada, deixando á mim e minha irmã nas mãos de meu pai que tratou de nos desovar em um colégio interno sem direito a visitas. Só um mês depois, nossos avós descobriram tudo e exigiram que saíssemos do internato e que minha mãe voltasse para casa.
Nada disso foi suficiente para que minha mãe o deixasse, ao contrário, estava em questão a sua disputa pessoal com a amante dele, outra infeliz que foi usada até o fim e depois de velha levou um pé na bunda; neste caso, bem feito.

Finalmente depois de tantas idas e vindas, tantos abandonos e vergonha, eles acabaram se separando, mas não porque ela tenha decidido, mas porque ele mesmo decidiu-se por outra infeliz que lhe deu um filho autista e acabou acelerando seu processo de morte “natural”; neste caso bem feito também.

Pois bem, uma vez separados, minhas mãe não o deixou em paz pelo resto de sua vida. Ora entrava com um processo bloqueando os bens dele para depois entrarem em um acordo e fazerem as pazes, mas FODAM-SE os filhos, que viviam em uma gangorra emocional sem precedentes.


Nos períodos de guerra na justiça, sua tática era nos deixar mal alimentados, passando necessidades sem necessidade, apenas para nos jogar mais ainda contra ele, dizendo ser um mau provedor, mas nisso tenho que defendê-lo, era tudo estratégia dela, pois ele comprovou anos depois que fazia os depósitos na conta dela.

Como ele não voltava mais, ela decidiu cair na gandaia e acabou por transformar-se na versão feminina da canalhice dele. 

Dona de um corpo bonito e uma beleza européia, loira com olhos azuis, encantava os homens e fazia questão de fazê-los sofrer. Me lembro bem de homens que passaram por sua vida e se desgraçaram depois tornando-se alcoólatras ou perdendo a estabilidade financeira pelos presentes que davam para ela.
Não aceitava aquilo, não gostava do jeito como ela conduziu minha vida e a da minha irmã e quando um dos seus namorados acabou se enamorando da minha irmã, isso pra mim foi a gota d‘água. Nessa época eu já gostava de brigar na rua e não foi difícil arrebentar a cara do sujeito, que por sinal, casou-se com minha irmã, deu-lhe um filho e sumiu no mundo. Um vagabundo que ela mesma colocou em casa.

Desde então eu sai de casa e fui morar primeiro com meus avós e depois sozinho. Foi a melhor coisa que eu fiz, pois vejo minha irmã hoje em dia vivendo com minha mãe e não vivendo a própria vida. Uma menina linda, loirinha dos olhos azuis, uma boneca e que se transformou numa matrona gorda, sem vaidade, infeliz, amarga e cheia de complexos. 

Sozinho, consegui prosperar. Só queria saber de trabalho, de não depender de ninguém e em pouco tempo consegui meu primeiro apartamento. Mesmo não gostando dela, a respeitava como minha mãe e vendo sua decadência, ofereci meu apartamento para que ela morasse com minha irmã, enquanto eu mesmo ia para outro lugar. Ela aceitou e minha consciência ficou tranqüila. Continuei pagando tudo, sem nunca exigir nada. Foi quando fui promovido e junto com as horas extras juntei tanto dinheiro que pude dar entrada em outro apartamento. Quando me separei da mãe dos meus filhos, achei justo deixar tudo para os meus filhos, mas junto com a separação vieram outros problemas e eu me descapitalizei. Então descobri que ao pagar as despesas de minha mãe e minha irmã, elas me cobravam juros de contas que eram pagas em dia. Incrível, não é?

Suspendi todos os pagamentos e disse que precisava pelo menos que ela me pagassem um aluguel simbólico até que eu me restabelecesse, mas elas se sentiram ofendidas e deixaram o apartamento, não sem antes depená-lo. Não deixaram nem as torneiras do banheiro, um absurdo!

Por tudo isso, não falo mais com minha mãe faz 13 anos e não sinto a menor falta dela. Na verdade queria mesmo que ela morresse, assim como meu pai morreu para que esse peso saísse das minhas costas.

Não há nada, nenhuma história agradável para contar sobre ela. Minha infância toda apanhei muito e de tudo que era jeito. O que ela encontrasse na sua frente servia para me bater. Apanhei de sinto, chinelo, sapato, cabo de vassoura, chicote de cavalo, vara de marmelo e até um prato foi arremessado na minha direção.
Carrego muitas marcas no meu corpo, mas principalmente na minha alma. Meu terapeuta diz que eu sou um poço de amor, só que nunca ninguém foi capaz de compreender isso e se dispor a receber, com exceção dos meus avós. Nem meus filhos foram capaz disso.

Isso me torna vítima? Claro que sim, mas eu não uso isso contra os outros, senão contra mim mesmo. Por isso, desejo a morte dela. Não foi sempre assim, mas quando meu pai me contou todos os seus podres e a reboque os podres dela, que participava e anuía o que ele fazia, eu me enojei dos dois. Isso foi uma merda, porque sem meus avós eu perdi completamente a minha referência. Achava que meus filhos poderiam me resgatar e eu me empenhei muito para isso me doando incondicionalmente, mas fracassei.

Se vocês tem pai ou mãe que lhe tratam com amor e carinho, aproveitem isso, valorizem isso, dediquem-se à eles. Vocês não sabem como é ruim não ter uma lembrança boa dos pais. 

Como escritor, estudo muito o perfil psicológico dos meus personagens e constatei que dei mesmo muita sorte de ser apenas bipolar, pois todos esses assassinos frios que lemos nos jornais, são frutos de violência doméstica e nasceram também com uma deficiência genética, onde a combinação dos dois fatores é o que dispara o gatilho emocional que os faz matar indiscriminadamente. Não teria coragem de matar ninguém, nem mesmo me matar eu tenho coragem. Todas as tentativas foram frustradas, sempre overdose de remédios porque tenho medo de sentir dor ou ficar inválido e vivo. Minha única exceção são meus personagens. Estes eu mato mesmo e as mortes são tão elaboradas que acho que é daí que vem o meu sucesso.

Bem, é isso, acho que exorcizei mais um demônio da minha vida. Estou mais leve e melhor do que anteontem, quando falei do meu filho mais velho.

Depois do carnaval pode ser que eu demore um pouco a escrever, pois tenho alguns trabalhos para entregar com prazo de validade. Trata-se de um longa-metragem, um romance (livro) e uma biografia (livro).

Um abraço.

Sigam-me no twitter @diabipolar




domingo, 6 de março de 2011

UM POUCO DA HISTÓRIA DO CANALHA DO MEU PAI

Quando eu nasci, meu pai não estava presente, tinha abandonado minha mãe para viajar com mais dois amigos para Portugal. Minha irmã já tinha nascido, mas minha mãe já havia feito dois abortos a pedido do canalha, com a anuência dela, é claro. Minha irmã só nasceu porque minha avó paterna disse que a sustentaria e eu só nasci porque meu avô paterno disse que me sustentaria. É bem verdade que meus avós também sustentariam nossos irmãos se soubessem que minha mãe os estava esperando, mas tanto ela quanto meu pai preferiram matá-los, só revelando o crime depois do fato consumado.

Meus pais eram muito egoístas para pensarem nos outros ou no caso, nos filhos, mas depois eu falo dela, agora preciso contar sobre ele. Meus avós sempre tiveram uma situação financeira bastante confortável e isso fez do canalha um vagabundo, sem responsabilidades. Antes da minha mãe ele já havia engravidado outras garotas e obrigado-as a abortarem. Minha mãe foi só mais uma na sua lista, mas única que casou de papel passado e, mesmo vivendo com ela, o mau caráter engravidou outras mulheres, fazendo da nossa casa um inferno, com suas amantes ligando e desrespeitando minha mãe ou mesmo abordando a mim e a minha irmã em parquinhos, enquanto estávamos sob os cuidados de uma babá.

Bem, ele pagou um preço alto, depois que ele e minha mãe se separaram por causa de uma dessas mulheres, com quem ele foi viver, ela resolveu ter o filho e o garoto nasceu autista. Não acredito em castigo, até porque esse deus teria que ser muito filho da puta pra castigar alguém deixando nascer uma criança com problemas mentais. Esse deus não existe, só está na cabeça das pessoas.

Nunca tive meu pai regularmente na minha casa, nem nos finais de semana, quando ele sumia com suas amantes me tendo-se em escolas de samba. Talvez por isso, eu não suporte carnaval e torça para que aconteça o que aconteceu este ano, quando os galpões das escolas de samba do Rio de Janeiro queimaram, ainda bem que sem vítimas, que isso fique claro. Nada tenho contra as pessoas, mas sim contra essa manifestação que faz as pessoas se transformarem.

Nunca fui ao cinema com meu pai, nunca assisti a um jogo de futebol nos estádios ou mesmo na televisão, nunca o tive ao meu lado para brincar, estudar ou nos meus aniversários, para tudo era meu avô quem se fazia presente, o homem que eu mais amei e amo na minha vida e que sempre estava comigo, meu maior e melhor amigo e que só de falar nele, ainda choro.

Do meu pai eu só lembro que as três vezes que ficamos mais juntos, foi quando levei três surras e tive que ficar no mesmo quarto virado para a parede enquanto ele conversava com meu tio que debochava de mim. Mas mesmo assim eu o amava, acho que tem a ver com a Síndrome de Estocolmo, quando a vítima se apaixona pelo seqüestrador. O que eu sei é que o meu castelo de areia só desmoronou um pouco antes de ele morrer.

Na minha adolescência ele também nunca esteve presente, nem nunca me procurou ou ofereceu-me qualquer coisa despretensiosamente, nem poderia, não existia afeto dentro daquele homem, só interesse. Para tudo e todas as suas relações tinha que haver uma troca, nada do que fazia era gratuito. 

Lembro que minha mãe teve a coragem de fazer com ele exatamente o que a mãe dos meus filhos fez comigo. Levou-me ao fórum para depor contra meu pai, mas tudo o que eu consegui fazer, foi correr para abraçá-lo e dizer que o amava, para desespero da minha mãe que viu seu plano de prejudicá-lo ruir.

Um mês depois sem contato comigo, ele foi ao meu colégio para pagar os meses atrasados e quando eu o avistei corri em sua direção gritando seu nome, mas ele fingiu que não me viu ou me ouviu e saiu em disparada com seu carro. Aquilo foi terrível e, dali pra frente minha relação com ele mudou drasticamente. Já não o amava mais, ou estava muito magoado, mas mesmo assim o respeitava, afinal ele era o meu pai. Nossa relação, contudo, ficou distante, burocrática, como ele não ligava, eu também passei a não procurá-lo e quando nos encontrávamos conversávamos apenas sobre amenidades. 

Quando ele arrumou uma amante nova, que gostava de malhar, me procurou e disse que achava que eu devia fazer educação física que ele me bancava, eu só tinha vinte e um anos e mal conseguia pagar minha faculdade de administração com o meu salário de bancário, mas topei; achei que podia ser o início de uma reaproximação, mas a amante morreu em poucos dias depois que eu já estava cursando a faculdade de educação física e ele simplesmente parou de pagar. Como não era de abandonar o barco e estava namorando minha primeira esposa que também fazia educação física, dobrei no trabalho e consegui pagar as duas faculdades. Isso de certa forma me ajudou, pois no trabalho eles viram que eu topava dobrar e logo ganhei uma função de confiança.

Quando me separei desta mulher por traição, não tive o apoio de ninguém. Minha avó morreu no dia do casamento e alguns meses depois, descobri que era traído por ela. Me separei sem levar o problema para ninguém, pois não queria preocupar meu avô. Mas a notícia corre frouxa. Só que nem ele nem minha mãe deram as caras. Foi um período difícil que enfrentei sozinho.

Seis anos depois, me aproximei novamente do meu pai, quando casei novamente e meus filhos nasceram, achei que isso poderia sensibilizá-lo. No entanto, não era uma relação como a que eu tive com o meu avô, infelizmente, por isso me desdobrava para oferecer aos meninos todo o amor do mundo. Ele não procurava os garotos, nunca deu nada para os netos, nunca teve esse prazer, mas não deixava de encher a cara com os vagabundos dos amigos de samba que tinha feito ao longo da sua vida marginal. 

Ele trabalhava, é verdade, nunca deixou faltar nada material em casa, mas só tomou jeito na vida quando meu avô decidiu jogar duro com ele. Mesmo assim, suas conquistas no trabalho se deram por negociatas, contratos escusos. Não posso deixar de mencionar sua ligação com bicheiros e toda a corja de maus elementos que o faziam se sentir um cara importante no meio de tanta gente desqualificada, mal educada e sem caráter. 

Não procurar os netos era o que menos importava, já que na minha vida toda, ele nunca me procurou e foi capaz de me internar em um colégio da noite para o dia, aproveitando que minha mãe tinha sido internada em uma clinica psiquiátrica, depois que surtou, por saber que ele mantinha um relacionamento com a mesma amante da juventude, sua maior rival. Um covarde! Nunca me esqueço de que, ao deixar minha irmã primeiro que eu em outro colégio interno, ela olhou pra ele e disse que ele era um canalha. Fomos abandonados sem que, nem mesmo nossos avós, soubessem onde estávamos. 

Bom, quando depois de todos os excessos cometidos durante a vida resultaram em um câncer, ele finalmente caiu, mas ninguém estava lá para cuidar dele, nenhum amigo do samba, nenhum bicheiro, nem seus pais que certamente morreram envergonhados pelo filho que tiveram e que deram educação e amor que eu sou testemunha; nem mesmo a atual companheira lhe acompanhava e se omitia quando tinha que lhe dar os remédios na hora certa e só lembrava-se de me chamar para levá-lo ao médico um dia antes, como se quisesse que eu dissesse que não podia, mas eu sempre dava um jeito. Lembram da minha consciência? Pois é, eu preciso estar sempre de bem com ela.

Conforme a doença foi piorando, ele também foi ficando com Alzheimer e Diabetes. Orgulhoso que era não queria andar de cadeira de rodas me obrigando a carregá-lo no colo. Quando esteve internado duas vezes porque teve crise de diabetes, eu o socorri nas madrugadas sob o olhar curioso de sua companheira que parecia querer torturá-lo demorando para chamar o socorro, ou dar as informações que ajudariam os enfermeiros. Muitas vezes eu cheguei a casa dele e o vi sujo de fezes e urina, pois ela dizia que sentia nojo de trocar suas fraldas.

Tratei de todas as internações e me internei com ele para não deixá-lo sozinho. Cada um dava uma desculpa para não visitá-lo. A própria companheira só o visitou uma vez em 20 dias e dos amigos só um compareceu, é o mesmo que hoje se apresenta como advogado da companheira para tratar do inventário.

Como pagamento por cuidar dele, limpar suas fezes, trocar suas fraldas, carregá-lo no colo, doar meu sangue para as suas transfusões, servi-lo como motorista particular ele resolveu contar a história da sua vida para mim, sem que eu tivesse pedido que falasse. Canalha que era, precisava dar sua última estocada e se sentir por cima. Não poupou-me de nada e ainda sorria e bancava o fanfarrão falando dos abortos, do abandono, do internato, da sua vida dissoluta. 

Agüentei firme, mas quando ele acabou me despedi sem fazer alarde. Liguei para minha irmã e para a companheira dele e disse que elas assumissem dali pra frente. Não agüentava mais sequer olhar para a cara dele. Vomitei no banheiro do hospital, chorei muito por tê-lo como meu pai, por ser um desgraçado de ter nascido de duas pessoas tão horríveis, de não ter meu avô e minha avó por perto. Quis morrer, mas não podia, existiam meus filhos. Nessa época eu ainda os via.

Seu fim foi triste. Acabou sozinho em um hospital de quinta categoria, abandonado pela companheira que está respondendo a um processo por abandono de incapaz que minha irmã está cuidando para que ela seja presa ou perca todos os direitos como herdeira. Não fui ao enterro, não quero saber de nada ou ninguém, já disse que o que sair do inventário eu vou doar para os garotos. Se ele não me deu em vida, eu não quero nada dele depois de morto. Só quero esquecer, esquecer, esquecer...

Sigam-me no twitter @diabipolar





sexta-feira, 4 de março de 2011

O PASSADO É O QUE ME MANTÉM VIVO

Quando deixei meu pai na casa dele desabei a chorar dentro do carro, na volta para a minha casa. Meu filho mais velho era para mim, a pessoa mais importante do mundo, mais importante até do que eu mesmo, embora nunca tivesse deixado isso claro pra ninguém. 

Temia que, se ele soubesse, acabasse se transformando em um menino arrogante e prepotente, temia que o meu filho mais novo percebesse e se sentisse desprezado ou rejeitado, temia que minha esposa se sentisse diminuída pelo meu amor por ele e temia por mim, por perder a razão e protegê-lo mais do que devia ou merecia, mas eu o amava com todo o meu amor e projetei nele tudo o que não tive, o amor dos meus pais que me faltou, o desprezo que cada um dos dois sempre demonstraram por mim e por minha irmã, quando não investiram em nossa educação e quando nos internaram em colégios, sem direito à visitas, quando deixaram que nossos avós cuidassem de nós dois como seus filhos, isso não é destino, é sorte e azar. Sorte de termos sido acolhidos por nossos avós e azar por termos nascido de pais tão incompetentes e egoístas. 

O que sofri quando criança e adolescente não poderia deixar que ele e o mais novo sofressem, conheço bem os dissabores da vida e os seus avós não seriam nunca como os meus, eles simplesmente não prestavam e não prestam. Do meu lado, um avô irresponsável, egoísta e mau caráter e uma avó desequilibrada, sem valores morais e éticos que possam ajudá-los a discernirem o certo do errado; do lado da mãe, um avô alcoólatra, agressivo, irresponsável e ignorante e uma avó beata, ignorante, que batia nos filhos porque  não queriam ir às missas ou porque anão pssavam água benta nos rostos fazendo o sinal da cruz, que diz que o pai deles é um assassino de deus, porque é judeu e que, por isso, vai arder no inferno.

Dentro do carro, de volta para casa, só  passava um filme na minha cabeça. Em velocidade acelerada via tudo o que fiz por eles e o pagamento que recebi em troca. A decepção que eles me causaram era muito grande. Foi como se último bastião de fé  que eu ainda tinha tivesse sido destruído.

Depois de ver inocentes morrerem em nome de deus deixei de acreditar cegamente nesse deus e fui investigar sobre sua origem, até que perdi completamente a fé ao descobrir que ele não passa de uma invenção do homem; depois que meus avós se foram, não acreditava mais nos homens, depois do episódio com o meu enteado, já não acreditava mais na minha esposa, pois vi o quanto menosprezou todo o meu esforço em evitar que ambos sofressem, pois o fim do marginal seria a cadeia ou uma bala na cabeça, já que subia morros em busca de drogas e depois passou a fabricá-la no armário do próprio quarto, podendo levá-la inclusive em cana, pois ele era menor quando intercedi.

Não duvido do amor dela por mim, eu sei que ela me ama, mas tenho minhas dúvidas se entre eu e o filho bandido, ela me escolheria, mesmo sabendo que ele vai sugar toda a sua vida enquanto continuar lhe dando boa vida, mas é que depois desse episódio, eu perdi a fé em tudo e nela também.

Correndo feito um louco na volta pra casa, pensei em me matar,  em atravessar a mureta de proteção e deixar que o carro caísse no mar me levando para o fundo dele e apagasse minha história horrível, pesada, triste e sem a menor chance de ser reescrita. Não havia mais nada por que lutar, não existiam mais meus avós, e agora, nem meus filhos.

O meu filho mais novo eu já não via fazia seis meses, desde quando meu filho mais velho saiu da minha casa. Meu pai morria de câncer aos poucos, minha mãe me aporrinhava preocupada com o que sobraria para ela no caso dele morrer, mesmo estando separada dele vinte e oito anos e ele vivendo com outra mulher todo esse tempo, minha irmã só pensava em se vingar da companheira do meu pai que por sinal não vale a merda que caga, me desculpem esse termo, mas ela matou meu pai, depois eu conto isso.

Foi quando então, roubei três folhas do receituário azul da minha esposa, falsifiquei a assinatura dela e usei seu carimbo para comprar seis caixas de Rivotril. Até hoje eu não me lembro de mais nada, nem mesmo da internação, apaguei da minha memória completamente. Não sei se fazia isso com a intenção de morrer, mas a sensação de esquecer tudo e todos era muito boa e é isso que ainda me tenta a pensar em fazer uma nova investida. Estou controlado, é verdade, e quando esse pensamento vem muito forte, eu já o reconheço e peço para que minha esposa retire todos os remédios de perto de mim.

Bom, um ano e meio depois, meu pai estava morto, meu enteado estava em outro país sugando o dinheiro da mãe e vivendo sem a menor responsabilidade com a anuência dela e eu não via mais meus filhos. Minha irmã que também é minha advogada, me disse que a denúncia na delegacia de menores se transformara em um processo e que haveria uma audiência para que eu fosse ouvido.

Pois bem, compareci, com todas as testemunhas que podiam confirmar que este menino sempre foi muito bem tratado, recebeu amor e carinho e todas as oportunidades que um pai responsável e com condições poderia lhe oferecer.

Entre as testemunhas, havia um desembargador, um juiz federal, um amigo que morou comigo e viu o que eu passava para cuidar deles quando a mãe simplesmente os abandonava em minha casa para sair com seus namorados, uma amiga do trabalho que cansou de vê-los frequentarem meu ambiente de trabalho.

Do lado da mãe, nenhuma testemunha para dizer que eu o havia agredido, nem o motorista da van que o levou para o colégio e que podia atestar que ele estava machucado, ninguém do colégio, nem inspetores, nem as pessoas da enfermaria que poderiam atestar que ele chegou machucado, nada, nem ninguém, apenas ela e ele.

Quando eles chegaram eu o chamei:
_Filho, nós já estamos sem nos falar faz um ano e meio, você não vai dar um abraço no seu pai?

Tudo o que consegui com isso, foi que a mãe pedisse ao juiz que ele não depusesse na minha frente porque se sentia constrangido, mas eu sei que não foi por constrangimento que ele não ficou de frente para mim e sim, porque ficaria envergonhado de sustentar tamanha mentira.

Circo armado, fui apresentado a seguinte situação: ou continuava o processo para provar minha inocência, com novas audiências, nova exposição dele no tribunal, ou faria um acordo, onde deveria comparecer bimestralmente no cartório da vara para assinar presença e se no período de dois anos eu não tivesse nenhum processo criminal tudo seria arquivado.

Minha irmã e todos os parentes e amigos pediram que eu continuasse com o processo, que era um absurdo o que a mãe e ele estavam fazendo, mas eu não fiz nada disso, a sentença para ele já estava tatuada em sua alma. Pra toda vida ele vai carregar o fato de que mentiu contra seu pai, testemunhou contra a pessoa que mais o amou na vida e acabou por perdê-lo aos poucos, até que não sobrasse mais nada.

O mais engraçado, foi que durante esse período, fui procurado duas vezes pelo colégio dele para que autorizasse sua viagem para fora do Brasil para disputar torneios esportivos e sempre fui pressionado para que não desse a autorização, para que o castigasse me negando a participar de qualquer coisa que o ajudasse na vida.

Cada vez mais eu ficava impressionado com a dureza e a frieza das pessoas, dos parentes dele, tios, primos, mas preferi não agir assim, minha consciência é quem dita minhas ações. Dei as autorizações e secretamente acompanhei suas viagens, assisti calado suas conquistas em torneios internacionais e sempre esperei que ao retornar, me mandasse as fotos, me procurasse ou pelo menos agradecesse, mas ele nunca fez isso.

Conforme o tempo foi passando, eu sofri mais, sem tê-lo por perto há dois anos e sem o caçula sempre seis meses a mais, fui passando por um misto de raiva, pena, perdão, até que completamos quatro anos sem nos vermos, sem fazermos qualquer contato.

Ainda me esforço para compreender o que foi capaz de afastá-los de mim. Como essa mãe é má, como pude escolher tão mal. Ofereci sempre o melhor, me doei, me anulei, investi, dei amor, carinho e só os tirei da minha casa por causa do infeliz do meu enteado que poderia levá-los para o vício. Que pai ou mãe, que zele por seus filhos não tentará protegê-los dessa forma?

Minha consciência repousa tranquila, tudo fiz para que nunca pudessem me acusar de omissão, de abandono, de não ter tentado. Nesses quatro anos, liguei, mandei e-mail, procurei, me expus, passei vários constrangimentos, recebi inúmeros NÃOS como resposta e nunca diretamente, sempre com alguém mediando, nem mesmo os pedidos para que viagem, façam cursos, ou estudem no mesmo colégio, partem deles.

Nunca deixei de participar financeiramente e ao me separar deixei um apartamento de quatro quartos para eles e para a mãe. Quem faz isso? Fui eu quem conseguiu que eles estudassem em um bom colégio, todos os cursos e escolinhas que pediram para participar eu pagava, mas o mais importante que dei foi o meu amor, mas eles recusaram e agora já é tarde para recuperá-lo. Hoje, sei que ela diz que foi ela quem consquistou tudo. Das duas uma, ou eles sofrem de amnésia ou são tão mau caráter quanto a mãe.

Apaguei todas as fotos que tinha, queimei outras tantas, retirei os porta-retrados e tudo o que me lembrasse eles, de perto de mim. Enquanto forem dependentes pagarei tudo, pois eu sei o que é ser criança ou adolescente e ser prejudicado pela mesquinharia de pais egoístas, mas até fazerem dezoito anos, só autorizo a viajarem se eles mesmo pedirem, é minha última maneira de conseguir me aproximar. 

Hoje eles têm catorze e quinze anos e eu não sei nada da vida deles, minha memória afetiva em meus sonhos só me mostra eles crianças. Isso é algo que estou trabalhando na terapia, mas que confesso está me matando. A vida perdeu a graça, eu perdi o tesão de viver ou lutar para viver.

A realidade é dura, não existem milagres, ninguém vai interceder em favor de ninguém, porque é preciso que cada um cumpra seu papel e assuma as consequências das escolhas certas ou erradas que fazemos na vida.

Ainda choro quando trato deste assunto e isso não é de todo ruim, porque significa que eu ainda os amo, mas sei que não é mais como antes, sempre haverá dúvida e desconfiança de ambas as partes, se um dia voltarmos a nos falar. 

Sinto minha vida atrelada ao passado. Não quero avançar, talvez por medo de constatar que tudo acabou.

O passado é o que ainda me mantém vivo.

O futuro é sombrio, solitário, vazio.

Não espero nada dele...Estou chorando.

Acho que por hoje é isso...

Sigam-me no twitter @diabipolar

Se puder, comentem, não sei o que vai acontecer quando eu terminar de escrever minhas memórias, não ameaço me matar e nem digo que vou viver em paz. Escrever me distrai, me faz avançar mais um dia, outro dia e outro, e outro.......

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

UM PUNHAL ENTERRADO NAS MINHAS COSTAS ATÉ HOJE

Dois meses internado foram o suficiente para a minha recuperação. Com um currículo de internação por overdose, seguido de fuga, médicos e enfermeiros ficaram admirados com minha resiliência. 
 
Nesta nova temporada de internação, que por sorte foi em outra clínica, comportei-me bem diferente do que na primeira. Procurei dedicar-me a leitura e a fazer novos "amigos". Como escrevo e crio personagens, comecei a interessar-me por esse universo psicológico, acreditei e acredito que era o que faltava na composição deles.  
 
Conheci muita gente engraçada, sofrida e sensível que, assim como eu, adernava por mares escuros e atormentados sem velas ou motor, e muitas vezes sem um comandante. Poderia escrever muitas linhas, mas o blog perderia sua função. Prefiro emprestar suas histórias para os meus personagens.
 
De volta a ativa, minha mesa estava acumulava de cartass e e-mails me cobrando os trabalhos assumidos anteriormente, e convites para novos trabalhos. Gozado como acostumei-me a viver sob tensão, acho que viciei-me na fase eufórica. É justamente sob pressão que realizo meus melhores trabalhos. Quando tudo está muito calmo, não rendo igual e a depressão se aproxima mais rápido.
 
Em duas semanas, entreguei tudo o que estava devendo e comecei a trabalhar em novos projetos, mas faltava saber o mais importante, onde estavam meus filhos. Três meses sem nenhuma notícia, na clínica, só minha esposa me visitou diariamente alterando toda sua rotina, mais ninguém. Não posso reclamar disso, ao longo da vida fui construindo muito mais muros do que pontes e também não sei se gostaria de receber a visita de "amigos" que me veriam como uma "Avis rara" 
 
A primeira coisa que fiz foi ligar pra eles, mas sa mãe impedia-me de falar com eles dizendo que ora estavam na escola, ora, dormindo, ora brincando, ora bolas, como é que alguém pode ser tão insensível assim? Continuei tentando, mas agora para o celular deles, mas sempre dava fora de área ou caixa postal; deixei vários recados e nada. Mandei e-mails, torpedos, cartas registradas e nada. Tomei coragem e fui até o colégio deles, e entçao veio a surpresa. Todos dois disseram que não quweriam me ver ou falar comigo, mas não disseram isso pessoalmente, mandaram recado pelas cooordenadoras. O constrangimento foi muito grande, mas ainda não seria o pior.
 
O tempo foi passando, 4, 5, 6 meses e eu continuava tentando fazer contato, mas eles não demonstravam qualquer sentimento de querer se aproximar. Pensava em tudo, o que poderia ter feito para que eles mudassem radicalmente de comportamento. O que será que deixei de fazer pelos dois? Estudavam em escola pública e eu leveio-os para uma escola de ponta, onde estão até hoje; coloquei-os em cursos de inglês, futebol, informática, desenho, lutas, natação e o que mais me pediam. A mãe tendo condições de oferecer o mesmo, não oferecia, mas hoje posa como se tudo tivesse oferecido, até mesmo o colégio.
 
Isso me fazia mal, me jogava pra baixo. Amo os meus filhos, passei com eles a maior arte do tempo da infância de cada um. Fui o pai da praça, da creche, da praia, do colégio, o amigo dos amiguinhos deles. Posso ter me excedido quando mandei o mais velho de volta pra casa da mãe por causa do meu enteado, mas já  não via o caçula havia algum tempo. O que será que podia vir além disso?

A resposta veio dois dias depois. Um oficial de justiça me procurou e me convocou a prestar depoimento na DPCA (Delegacia de Proteção ao Menor e ao Adolescente)sob a acusação de maus tratos ao meu filho mais velho. 

O impacto foi como murro na cara. Todos ficaram indignados, mas eu ainda assim, justifiquei que era coisa da mãe deles e que tudo se esclareceria.
Fui com meu pai até a delegacia, mesmo ele, um cara que sempre cagou pra mim estava indignado e diante do inspetor disse que eu não merecia estar ali.

Ao ler o conteúdo da acusação, pude ver que constava a assinatura da mãe e o pior que um pai pode ver. Ali constava a assinatura do meu filho me acusando de algo que ele sabe que eu não fiz. 

O próprio inspetor confidenciou-me que enquanto ele endossava o que a mãe afirmara em seu depoimento, a megera alisava sua cabeça dizendo que ela estava ali do lado dele.

Defendi-me, mesmo achando surreal estar ali, naquele lugar. Meu pai disse que eu não tinha batido nele, mas que se meu filho fosse o filho dele, ele mesmo já teria batido para ele aprender a ter caráter.

Fui embora daquele lugar sem a certeza do que aconteceria depois. A sensação era de que um punhal estava enterrado em minhas costas. Quis morrer, mas meu pai estava com câncer e dependia de mim para levá-lo para casa; e foi o que eu fiz, mas na volta...
 
Eu conto depois.

 
Um abraço. 
 
PS: Siga-me no Twitter  @diabipolar

domingo, 20 de fevereiro de 2011

BIPOLAR X PSICOPATA


Quando casei com minha terceira esposa, achei estranho o filho dela viver trancado no quarto, não querendo estudar e sempre com muito sono, pensei se tratar de uma fase, ou mesmo introversão, timidez, depressão, mas aos poucos fui descobrindo que ele era mesmo um psicopata que chantageava a mãe emocionalmente para conseguir atingir seus mais obscuros intentos.
 
Como pai de dois meninos e com formação acadêmica em Educação Física, já tendo dado aulas para crianças e adolescentes, percebi que alguma coisa estava errada na relação dos dois.  Ela como médica precisava ausentar-se o dia inteiro, só voltando para casa à noite, ele sem regras e sem lei, passava as tardes como bem queria e eu, instalado no escritório dela para trabalhar (achamos melhor morarmos no apartamento dela que era perto do consultório e alugamos o meu), observava a rotina da casa e prudentemente não interferia, pois adolescentes não gostam de ter seu espaço invadido e, afinal de contas eu não era o pai dele.
 
A história deles era a seguinte: o pai do garoto é um irresponsável, diagnosticado como borderline, que não trabalha apesar de ter duas formações acadêmicas e vive às custas da mãe. Ela percebendo a furada em que havia se metido, agüentou calada tudo o que ele fazia e formou-se em medicina. Quando o menino fez 10 anos,  pediu o divórcio. O cara se sentiu traído, na verdade, nem percebera que ela além de formada, já era mestra e doutora e trabalhava com um dos mais renomados médicos. da sua especialidade. O canalha, achando que se omitindo prejudicaria os dois, parou de pagar tudo, nem mesmo a pensão ou plano de saúde para o filho. Ela, muito orgulhosa, nunca pediu nada e mostrou para quem duvidava, que sozinha segurava a barra. Ele, com raiva passou a assediar o filho e a jogá-lo contra a mãe. 
 
Como forma de compensar as ausências por conta do trabalho, o garoto cresceu criado por babás e que, nem sempre, eram as melhores companhias. Com elas, aprendeu a destruir o patrimônio do condomínio onde morava, aprendeu a fumar e interessou-se por drogas. 

Quando cheguei, o quadro era o seguinte, descoberto dois anos depois de nos casarmos: ele dormia tarde da noite, ia mal nos estudos, dormia parte da tarde e a outra parte ficava com “amigos” na banca de jornal da esquina.
 
Um dia viajamos e ele ficou com pai e quando voltamos percebemos que alguém tinha entrado na casa (ele não tinha as chaves). Foi quando descobri, encontrando as pistas que ele deixou, que um chaveiro tinha feito uma cópia da chave, pois ele alegou que a perdera. Dei uma busca em seu quarto e descobri as evidências de que ele estava se envolvendo com drogas.
 
Dali pra frente nossa relação mudou e eu passei a lhe fazer oposição e a controlá-lo na parte da tarde exigindo que ele se ocupasse com algum esporte, aulas de reforço, inglês, música ou o que ele escolhesse e que fosse construtivo. Claro que isso foi conversado e a ordem partiu da mãe, mas ele sabia que a mãe estava sendo orientada por mim. Sozinha ela nunca faria isso. Deste dia em diante fui declarado seu inimigo.
 
Os dias passaram a ser desgastantes, minha produção caíra muito pq agora eu virara babá de um adolescente mimado, até o dia em que ele disse para a mãe que iria embora para morar com o pai. Ela vacilou, mas eu tomei a frente e disse que ele devia ir mesmo morar com o pai, quem sabe assim ele aprendia a diferença entre os dois. O que nem eu, e nem minha esposa contávamos, era que o pai dele, para atingi-la, usaria o próprio filho destruindo-o.
 
Achamos que ele estava instalado na casa do pai e como ele não queria aproximação, deixamos a poeira assentar, até que, para infelicidade deles, eu trabalhei com um roteirista que estava morando exatamente aonde o pai o havia instalado sozinho, com apenas 15 anos. Quando a porta do elevador abriu e ele me viu, gelou, gaguejou e pressionado acabou confessando que estava morando ali. 

Eu contei para minha esposa o que estava acontecendo e ela duvidou, então combinamos de ir visitá-lo. Quando ele abriu a porta ela quase desmaiou. Entramos, e enquanto eles conversavam em um dos cômodos (na verdade era uma quitinete de 20m² dividida por biombos), eu fotografava as condições em que ele vivia.
 
Em menos de uma semana, entramos com uma ação contra o pai, que a esta altura, já o deixara abandonar a escola e nem sabia no que o filho estava envolvido. A decisão da juíza foi de que, ele deveria assumir a formação escolar do filho, tratamento psicológico, vestuário, alimentação, transporte e tudo o quanto se negou a dar a vida toda. 
 
Achamos que isso seria suficiente para ele voltar a morar conosco, compreendendo a péssima escolha que havia feito, mas seu caráter já estava formado e sua índole já mostrara sua pior face. Ele não veio, ficou com o pai e como este não ligava para nada, ele não só continuou nas drogas, como passou a subir morros e a traficar pequenas quantidades para os amigos.
 
Não demorou muito para a casa cair e aos 16 anos fomos chamados para retirá-lo de uma delegacia. Desesperada minha esposa me pediu para aceitá-lo sem criar resistência pq ela faria de tudo para recuperá-lo e contava comigo. Não podia dizer não, afinal eu Tb tenho dois filhos e gostaria que ela os aceitasse se a situação fosse inversa.
 
Com a promessa de que estudaria, se enquadraria na rotina da casa e respeitaria a hierarquia, ele voltou, mas ninguém muda de uma hora para outra. Em pouco tempo minha vida virou um inferno e minha esposa se negava a aceitar que o filho era um mau caráter. 
 
Com a máxima de que, para vencer o inimigo é preciso juntar-se a ele, estrategicamente começou a me defender contra a mãe em questões sem importância, aumentando a tensão e querendo demonstrar uma amizade que não tínhamos. Para mim era inconcebível que um ser humano pudesse ser tão frio a ponto de prejudicar àqueles a quem dizem amar. 
 
Nesse mesmo período, meu filho mais velho, pediu-me para morar conosco e eu deixei, afinal, sentia muito a falta dos dois., e com um morando comigo, talvez o outro viesse em seguida.  Mobiliei o quarto para que coubessem três garotos confortavelmente, para que não houvessem brigas por ciúmes. Mas em pouco tempo descobri que esse foi o meu maior erro, pois ainda não sabia do que meu enteado era capaz. Quando me dei conta, ele estava iniciando meu filho mais velho no mundo das drogas.
 
A primeira providência foi retirar meu filho de casa e mandá-lo novamente morar com a mãe, mas ele não entendeu o que estava acontecendo, negou que tivesse feito algo errado e me desafiou. Dei-lhe algumas palmadas na bunda e no dia seguinte o mandei para a escola com a ordem de que voltaria para a casa da mãe e ponto final. Não sabia que isso teria um desdobramento que me derrubaria. 

Mostrei todas as evidências para a minha esposa de que, seu filho, àão só estava de volta a velha rotina, como tb prejudicava a saúde do meu filho. Ela pediu um tempo para pensar sobre o que faria e este tempo foi o que ele usou para dizer que eu consumia drogas junto com ele. 
 
Por incrível que pareça ela acreditou e, cega, como toda mãe que prefere enfiar a cabeça na terra como um avestruz para não enxergar os defeitos nos seus filhos, acusou-me de ser sempre contra seu filho e perseguí-lo. Um discurso encomendado que eu já sabia quem era o autor.
 
Não me restou mais nada a fazer do que sair de casa e voltar para o meu imóvel. Só que junto comigo veio uma terrível depressão, pois estava longe da mulher que amo e sem poder ver meus filhos que se recusavam em me ver, ou falar comigo, pq para o meu azar, a mãe deles, ao invés de me agradecer por defender a saúde e integridade psíquica dos meninos, preferiu jogar-me contra eles dizendo que eu havia preferido ser o pai do meu enteado e que tinha expulsado eles da minha casa a socos e pontapés. 
 
O resultado disso, foi o afastamento dos meus filhos e 47 comprimidos de Bromazepan misturados com 23 de Rivotril e metade de uma garrafa de Ballantines e um corpo caído no chão da sala.
 
O resto eu conto depois.
 
Um abraço. 
 
PS: Siga-me no Twitter  @diabipolar

1999 ATÉ 2004 – UMA TRIP MUITO LOUCA POR DENTRO DA MINHA CABEÇA


Durante um ano e seis meses viajei sozinho por todo o continente americano. Enfiei-me em vários buracos sem a menor perspectiva de sair deles, passei muitos perrengues, fome, frio e apertos com pessoas mal-encaradas que poderiam ter dado um fim em minha vida.

Cada sufoco que passava, pensava que, o melhor seria mesmo morrer, afinal, pior do que estava não podia ficar. A bandida tinha me acertado o coração ao me separar dos meninos.

Na viagem, apesar de esconder um desejo inconfessável de me matar, acabou me fazendo viajar para dentro de mim mesmo, num processo de auto-conhecimento que me ajudou bastante.

O gosto pelo risco não diminuiu, é verdade, pulava de penhascos no mar, descia rios caudalosos em botes, nadava em mar aberto e corria como um louco pelas estradas, mas em cada lugar que passava, e olha, que eu passei por muitos lugares, aprendi a me relacionar com as pessoas mais humildes e puras. Meus valores mudaram bastante, embora eu nunca tivesse sido metido à besta, apesar de nascer numa classe mais privilegiada e ter visto muitos parentes tratarem empregados como se fossem a ralé, me revoltando por isso.

Foi graças a essas pessoas humildes que eu pude dormir melhor, ser tratado de um resfriado, comer uma comida gostosa, já que no meu cardápio só havia miojo e barras de cereais. Foram eles também que passaram a me dar ânimo para querer continuar a viver, pq, sem exigirem nada em troca, me davam carinho e atenção.

Era duro, ver como as crianças que eu ia encontrando pelo caminho gostavam de mim, enquanto meus próprios filhos me rejeitavam por causa da louca da mãe, mas ao mesmo tempo, isso me fazia perceber, que a vida, de alguma forma, estava querendo me compensar.

Nesse tempo eu não era ateu, ao contrário, acreditava muito em deus, justificava tudo o que me acontecia como se fosse a vontade dele. Acreditava como a maioria, que deus tinha um plano para a minha vida, e como todo mundo, justificava o bem que me acontecia como uma vontade dele e o mal como algum erro que eu tivesse cometido e por isso, estava sendo punido.

Então o tempo passou, depois de 88.000 km, a viagem acabou. De volta ao Brasil, e já sem a mesma folga nas finanças, fiquei preocupado em como faria para começar a arrumar dinheiro, o que iria fazer, já que não queria mais me sentir oprimido em um ambiente de trabalho, recebendo ordens medíocres, de pessoas medíocres. A viagem tinha mudado completamente minha minha cabeça.

Foi quando decidi aceitar um convite para escrever a biografia de um cara conhecido. Não era o que eu pensava fazer para ganhar dinheiro, mas não podia recusar trabalho, além do mais trabalharia na minha casa e com um bom adiantamento para realizar as pesquisas.

Durante 8 meses trabalhei nesta biografia e, quando foi lançada, o resultado foi bastante satisfatório. Depois desse trabalho pintaram muitos outros e também passei a trabalhar como escritor fantasma. Sabem o que é isso? É quando um escritor escreve todo o livro, mas quem assina é o cara que te paga. Vc ganha uma boa grana, mas os holofotes são todos para ele. Como no filme Budapeste.

Passei a ficar conhecido no meio artístico e não demoraram a surgir convites para escrever para TV, Cinema e Teatro. Foi quando conheci minha terceira e última esposa. Uma médica maravilhosa que me analisou de ponta a cabeça e me deu o primeiro diagnóstico de THB. Cheguei a frequentar seu consultório nos primeiros meses, mas depois que nos apaixonamos, ela me indicou  outro médico, com quem, aliás, estou até hoje.

Mas não foi tudo assim, tão fácil aceitar um tratamento. Entre a primeira conversa que tivemos, até decidir me tratar seriamente com o meu médico atual, muita água passou por debaixo da ponte. Pelo menos, foram contabilizadas duas tentativas de suicídio e as duas, por causa do filho dela, meu enteado. O sujeito mais mau caráter que eu conheci.

Mas isso vai ficar para o próximo artigo.

Um abraço.

PS: Siga-me no Twitter  @diabipolar

sábado, 19 de fevereiro de 2011

1995 ATÉ 1998 – MAIS UMA PÉSSIMA ESCOLHA COM DOIS LINDOS PRESENTES E O MAIS PROFUNDO POÇO A ME ACOLHER.

Depois de muito tempo sem arriscar novos relacionamentos, escolhi uma mulher do meu trabalho para casar. Ainda impregnado de falsos valores, escolhi uma bem bonita e com um corpo escultural. Em pouco tempo me apaixonei e como todo bipolar, não dei nem tempo de conhecer a pessoa profundamente.

Em um mês apenas, já estava morando junto, com mais dois, estava casado, mais um ano, já era pai do meu primeiro filho, treze meses depois, era pai do segundo e no fim do terceiro ano de relacionamento, antes de completar quatro, o casamento chegava ao fim.

Assim que o meu primeiro filho nasceu, a mãe deles teve o que chamam de depressão pós-parto, aquilo acabou comigo. Falo mãe deles porque não tolero nem chamá-la pelo nome. Se tem algo que eu me arrependa na vida, foi ter conhecido esta pessoa, foi um azar para mim, sobre todos os aspectos e vocês verão o motivo. Pois bem, durante todo o período em que ela estava grávida, reformei o quartinho dele, eu mesmo, sem ajuda. Construí um ambiente que eu mesmo não tinha recebido dos meus pais, mas ela conseguiu jogar um balde de água fria na minha cabeça. Dali pra frente o casamento ficou uma merda.

Quando nasceu o segundo filho, já estávamos forçando uma barra, mas como eu queria muito ser pai e me alegrava muito ver a felicidade do meu avô, agora saindo da cama para passear comigo e com os bisnetos, fui empurrando com a barriga, mas a data de validade já estava com o prazo vencido.

Quando enfim decidi me separar, a infeliz usou as crianças contra mim. Fiquei fragilizado. Meus filhos eram as únicas coisas que me restavam. Pouco tempo depois, meu avô morreria e eu estava literalmente só. Sem ânimo para mais nada, comecei a faltar ao trabalho.

No início, levaram em consideração meus últimos acontecimentos e me deram todas as vantagens que um emprego público federal pode oferecer. Dias em casa para descansar, férias acumuladas, licença prêmio e atestados médicos. Fiquei uns sete meses em casa sem ninguém me aporrinhar. Só queria saber dos meus filhos, mas a bandida sumiu com eles. Quando finalmente os achei, estavam com medo de mim pela quantidade de histórias horríveis que ela contou a meus respeito. Nem posso dizer que tenha inventado tudo, afinal, eu mesmo já relatei aqui o que fazia, mas a forma como fez, foi baixa, covarde, vil.

A cena de ver meus filhos fugindo de mim foi forte demais. O menor chegou a chorar quando me aproximei e o mais velho, que foi o que eu mais convivi, escondeu-se de mim. Aquilo me derrubou. Sai dali arrasado. Fui direto para o trabalho. Invadi uma reunião e disse que estava me demitindo. A diretoria ficou atônita, um disse que eu não podia fazer aquilo, outro que eu precisava me tratar, outro ainda que eu estava atrapalhando e que saísse e esperasse a vez para tratar de assuntos particulares. Resultado. Mandei todo mundo tomar no cú, botei o dedo na cara desse último e disse que o meu assunto particular passara a ser enfiar-lhe a porrada.

Sai dali, passei no RH e disse que estava me demitindo. Próximo passo foi chamar meu advogado, fazer um testamento para garantir os garotos e dar adeus pra vida. Acordei dois dias depois internado em uma clínica psiquiátrica. Nesse período surtei pelo menos mais umas duas vezes. Em uma delas, quebrei um enfermeiro na porrada. Só soube disso depois. Fiquei penalizado e passei a ajudá-lo financeiramente. Sempre fui assim. Na hora da briga eu não paro de bater, mas depois que a pessoa não reage eu paro, fico com pena e até cuido. Lembro que na infância e adolescência, cheguei a cuidar dos ferimentos dos meus adversários por pena. Gostaria de ter encontrado alguém que tivesse dado um fim a isso, mas nunca tive essa sorte.

Como fiquei com medo de ficar naquele lugar pra sempre, dei um jeito de fugir pulando o muro da clínica. Como estava com barba e cabelos compridos, a primeira providência, foi pedir esmolas. Arrumei uns R$ 10,00 e fui direto cortar os cabelos e fazer a barba. Depois fui pra minha casa, falei com o advogado e um médico amigo meu que trataram de resolver os problemas na clínica.

Antes que a demissão se concretizasse, entrei com várias ações trabalhistas que até então não havia entrado por ocupar uma posição de chefia e desenvolvi um projeto para tentar suportar o afastamento das crianças. Em seis meses estava embarcando a bordo de uma pick-up 4X4 em direção ao ponto mais distante ao norte da linha do Equador. Seria uma viagem só de ida, mas o mergulho interior foi tão profundo que quando o pé alcançou o fundo do poço, decidi impulsionar-me de volta à tona.

Mas isso eu só revelo no outro artigo.

Um abraço.

PS: Siga-me no Twitter  @diabipolar