Nascida em um lar severo, minha mãe é o que se pode chamar de menina bem assanhada para a sua época. Nada demais, se o canalha por quem se apaixonou não fosse o meu pai. Qualquer outra pessoa mais equilibrada perceberia a furada em que estava se metendo ao se juntar com um cara que, trazia como único trunfo no currículo, os pais. O resto era queimação de filme geral. O cara não gostava de trabalhar, andava em más companhias, engravidava as moças e depois as obrigava a abortar e já experimentara drogas. Podiam chamá-lo de cafajeste sem medo de errar.
No entanto, por uma triste e infeliz combinação de fatos, os dois se apaixonaram e decidiram construir uma história bastante acidentada, onde as vítimas foram sempre os parceiros escolhidos e os filhos nascidos ou fecundados.
Não importava nada para minha mãe, somente meu pai e por ordem dele e anuência dela, perdi dois irmãos que foram abortados, apenas porque eles decidiram que seria assim. Minha irmã, como disse antes, escapou da sentença por causa da minha avó e eu, por causa do meu avô, mas para que fique bem claro que isso não foi uma fantasia criada pela minha cabeça, tive acesso a carta que ela escreveu para minha avó ameaçando me abortar se ela não ajudasse financeiramente.
Atenção, porque não estou falando de uma favelada, sem eira, nem beira, mas de uma garota de classe média, casada com um cara de classe média alta, portanto, ambos com condições de tocarem sozinhos a família que decidiram constituir.
Dele eu já falei, mas talvez tenha faltado acrescentar que enquanto minha mãe estava grávida de mim, até dois meses antes de eu nascer, ele mantinha com os amigos um apartamento para suas orgias, distante apenas dois quarteirões de onde morava.
Por conta da displicência, do descaso e do egoísmo dela, tive anemia profunda. Não me alimentava direito e para tudo ela me entupia de antibióticos. Só quando meus avós descobriam a forma como nos tratavam é que atuavam, levando-nos aos melhores médicos e nos oferecendo todo o conforto.
Foi por seu amor doentio que acabou surtando e sendo covardemente internada, deixando á mim e minha irmã nas mãos de meu pai que tratou de nos desovar em um colégio interno sem direito a visitas. Só um mês depois, nossos avós descobriram tudo e exigiram que saíssemos do internato e que minha mãe voltasse para casa.
Nada disso foi suficiente para que minha mãe o deixasse, ao contrário, estava em questão a sua disputa pessoal com a amante dele, outra infeliz que foi usada até o fim e depois de velha levou um pé na bunda; neste caso, bem feito.
Finalmente depois de tantas idas e vindas, tantos abandonos e vergonha, eles acabaram se separando, mas não porque ela tenha decidido, mas porque ele mesmo decidiu-se por outra infeliz que lhe deu um filho autista e acabou acelerando seu processo de morte “natural”; neste caso bem feito também.
Pois bem, uma vez separados, minhas mãe não o deixou em paz pelo resto de sua vida. Ora entrava com um processo bloqueando os bens dele para depois entrarem em um acordo e fazerem as pazes, mas FODAM-SE os filhos, que viviam em uma gangorra emocional sem precedentes.
Nos períodos de guerra na justiça, sua tática era nos deixar mal alimentados, passando necessidades sem necessidade, apenas para nos jogar mais ainda contra ele, dizendo ser um mau provedor, mas nisso tenho que defendê-lo, era tudo estratégia dela, pois ele comprovou anos depois que fazia os depósitos na conta dela.
Como ele não voltava mais, ela decidiu cair na gandaia e acabou por transformar-se na versão feminina da canalhice dele.
Dona de um corpo bonito e uma beleza européia, loira com olhos azuis, encantava os homens e fazia questão de fazê-los sofrer. Me lembro bem de homens que passaram por sua vida e se desgraçaram depois tornando-se alcoólatras ou perdendo a estabilidade financeira pelos presentes que davam para ela.
Não aceitava aquilo, não gostava do jeito como ela conduziu minha vida e a da minha irmã e quando um dos seus namorados acabou se enamorando da minha irmã, isso pra mim foi a gota d‘água. Nessa época eu já gostava de brigar na rua e não foi difícil arrebentar a cara do sujeito, que por sinal, casou-se com minha irmã, deu-lhe um filho e sumiu no mundo. Um vagabundo que ela mesma colocou em casa.
Desde então eu sai de casa e fui morar primeiro com meus avós e depois sozinho. Foi a melhor coisa que eu fiz, pois vejo minha irmã hoje em dia vivendo com minha mãe e não vivendo a própria vida. Uma menina linda, loirinha dos olhos azuis, uma boneca e que se transformou numa matrona gorda, sem vaidade, infeliz, amarga e cheia de complexos.
Sozinho, consegui prosperar. Só queria saber de trabalho, de não depender de ninguém e em pouco tempo consegui meu primeiro apartamento. Mesmo não gostando dela, a respeitava como minha mãe e vendo sua decadência, ofereci meu apartamento para que ela morasse com minha irmã, enquanto eu mesmo ia para outro lugar. Ela aceitou e minha consciência ficou tranqüila. Continuei pagando tudo, sem nunca exigir nada. Foi quando fui promovido e junto com as horas extras juntei tanto dinheiro que pude dar entrada em outro apartamento. Quando me separei da mãe dos meus filhos, achei justo deixar tudo para os meus filhos, mas junto com a separação vieram outros problemas e eu me descapitalizei. Então descobri que ao pagar as despesas de minha mãe e minha irmã, elas me cobravam juros de contas que eram pagas em dia. Incrível, não é?
Suspendi todos os pagamentos e disse que precisava pelo menos que ela me pagassem um aluguel simbólico até que eu me restabelecesse, mas elas se sentiram ofendidas e deixaram o apartamento, não sem antes depená-lo. Não deixaram nem as torneiras do banheiro, um absurdo!
Por tudo isso, não falo mais com minha mãe faz 13 anos e não sinto a menor falta dela. Na verdade queria mesmo que ela morresse, assim como meu pai morreu para que esse peso saísse das minhas costas.
Não há nada, nenhuma história agradável para contar sobre ela. Minha infância toda apanhei muito e de tudo que era jeito. O que ela encontrasse na sua frente servia para me bater. Apanhei de sinto, chinelo, sapato, cabo de vassoura, chicote de cavalo, vara de marmelo e até um prato foi arremessado na minha direção.
Carrego muitas marcas no meu corpo, mas principalmente na minha alma. Meu terapeuta diz que eu sou um poço de amor, só que nunca ninguém foi capaz de compreender isso e se dispor a receber, com exceção dos meus avós. Nem meus filhos foram capaz disso.
Isso me torna vítima? Claro que sim, mas eu não uso isso contra os outros, senão contra mim mesmo. Por isso, desejo a morte dela. Não foi sempre assim, mas quando meu pai me contou todos os seus podres e a reboque os podres dela, que participava e anuía o que ele fazia, eu me enojei dos dois. Isso foi uma merda, porque sem meus avós eu perdi completamente a minha referência. Achava que meus filhos poderiam me resgatar e eu me empenhei muito para isso me doando incondicionalmente, mas fracassei.
Se vocês tem pai ou mãe que lhe tratam com amor e carinho, aproveitem isso, valorizem isso, dediquem-se à eles. Vocês não sabem como é ruim não ter uma lembrança boa dos pais.
Como escritor, estudo muito o perfil psicológico dos meus personagens e constatei que dei mesmo muita sorte de ser apenas bipolar, pois todos esses assassinos frios que lemos nos jornais, são frutos de violência doméstica e nasceram também com uma deficiência genética, onde a combinação dos dois fatores é o que dispara o gatilho emocional que os faz matar indiscriminadamente. Não teria coragem de matar ninguém, nem mesmo me matar eu tenho coragem. Todas as tentativas foram frustradas, sempre overdose de remédios porque tenho medo de sentir dor ou ficar inválido e vivo. Minha única exceção são meus personagens. Estes eu mato mesmo e as mortes são tão elaboradas que acho que é daí que vem o meu sucesso.
Bem, é isso, acho que exorcizei mais um demônio da minha vida. Estou mais leve e melhor do que anteontem, quando falei do meu filho mais velho.
Depois do carnaval pode ser que eu demore um pouco a escrever, pois tenho alguns trabalhos para entregar com prazo de validade. Trata-se de um longa-metragem, um romance (livro) e uma biografia (livro).
Um abraço.
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Parabéns pois apesar de todas essas magoas vc conseguiu vencer na vida. Abraços.
ResponderExcluirA sua história é triste e a sua dor é tão grande que mal cabe no peito, mas a sua força te manteve vivo!!!! Sua história beira a ficção, admiro a sua sinceridade e coragem de expor tudo isso!!! mesmo não se identificando, mas isso não importa!!!! Eu também tenho um blog se quiser visitar http://meumundomeutedio.blogspot.com.br/
ResponderExcluirAbraço!
Parabéns pelo seu blog! Siga em frente!
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