Sou fruto de um casal egoísta que apresenta em seu histórico familiar, casos de bipolaridade de grau I e II e esquizofrenia.
Na verdade, não era para eu ter nascido, outros antes de mim, foram abortados, eu mesmo só escapei por sorte, ou terá sido a falta dela que me trouxe para este mundo estranho? Até hoje não consegui responder esse questionamento.
Vou tentar ser breve ao falar do meu histórico familiar, começando pela minha mãe, Helena. Seus pais casaram-se e tiveram 12 filhos. Meu avô Oscar, era um homem brilhante, botânico reconhecido mundialmente celebrado em livros e com o nome imortalizado em uma aléa no Jardim Botânico do RJ, mas também instável emocionalmente.
Uma história dele que nunca esqueci e que minha mãe me contou quando eu ainda era uma criança, relata que ele ouvia vozes e, achando que eram ladrões, saia com um enorme facão atrás dos "bandidos" no imenso casarão em que moravam no Cosme Velho.
Minha avó, Zalina, era uma parva, pouco me lembro dela, não fez nada que merecesse destaque, a não ser, deixar que os filhos e netos a humilhassem e a tratassem mal para depois desabar em crises de depressão.
Meus onze tios ou eram bipolares ou esquizofrênicos. Hoje, lembrando o que fizeram enquanto eu era garoto, me espanto, ao mesmo tempo em que sinto o quanto devem ter sofrido com os seus problemas psíquicos.
Um deles, Aloísio, certa vez, perdeu as chaves de casa e decidiu entrar pela janela do banheiro. Nada demais se ele não morasse no 8º andar e o acesso fosse somente pela clarabóia. Morreu deprimido com um cocktail de comprimidos e álcool.
O mais engraçado de todos era Henrique, não conseguia se estabilizar economicamente e emocionalmente e viveu sua vida com mulheres sempre 20 anos mais velhas que o sustentavam. Morreu de enfisema pulmonar bolhoso. Fumava 2 maços por dia do forte cigarro Continental e, ainda por cima, sem filtro.
Sílvia e Glaucia eram queridas, mas igualmente perturbadas, tanto que casaram e foram amantes do mesmo homem e com ele tiveram 4 filhos. Morreram esquecidas pelos filhos e netos.
Nancy era Procuradora do Estado, mas seu hobby predileto era defecar no acento dos vasos sanitários dos banheiros dos irmãos. Lembro que meu tio Nilson a escorraçou de sua casa quando foi o escolhido da vez. Morreu sozinha, nenhum irmão foi ao seu enterro.
Por falar no meu tio Nilson, sua mania era limpar toda a casa atapetada com as mãos. Todos os dias ,ele passava horas catando pequenas sujeiras com os dedos, não importava se haviam visitantes em sua casa. Morreu demente, depois de desenvolver Alzheimer.
Hélio foi o mais proeminente, era um delegado federal, mas tão instável quanto os irmãos, teve várias esposas e amantes, mas curiosamente só um filho. Morreu também de enfisema e sozinho, o único filho não compareceu ao enterro.
Os outros eu não conheci, já haviam morrido quando eu nasci e pouco ouvi sobre eles, mas não duvido nada que o fim de cada um, tenha sido tão triste quanto dos irmãos citados.
Minha mãe é uma pessoa egoísta e desequilibrada. Negociou meu aborto com a minha avó paterna, dizendo que só me deixaria nascer se ela pagasse as despesas e o sustento. Descontava seus episódios de mau humor por causa da bipolaridade de grau I, espancando a mim e a minha irmã com cintos, chicotes, cabos de vassoura e até arremessando pratos. Carrego muitas marcas no corpo e na alma por conta disso. Não falo com ela fazem 10 anos. Não agüento nem ouvir a voz e sempre que me vem alguma lembrança, sempre ruim, fico muito mal. São as piores lembranças possíveis e que ao longo desta jornada irei partilhar com cada um de vocês.
Do lado paterno as notícias são um pouco melhores, embora algumas experiências tenham sido terríveis. Minha avó, Maria, era bipolar de grau II, às vezes sobrava um esporro aqui, outro ali, mas no geral eu a amava muito e ainda hoje sinto sua falta. Foi a mãe que eu não tive e só não foi mais, porque a mãe verdadeira por ciúmes me impediu de conviver com ela.
Meu avô, José, sofria de depressão, e seu caso se agravou quando meu pai lhe aplicou um golpe que o levou para a cama e nunca mais se recuperando. Fui o seu melhor amigo e ele o meu. Também sinto muito a sua falta. Com todos os percalços convivi com eles até meus 8 anos, depois disso fui encerrado em um colégio interno e só sai de lá aos 13. Depois fui morar com eles aos 19 e ficamos juntos até eu sair para casar aos 28. Acho que todo esse tempo me salvou de cometer um desatino, mas em compensação a saudade deles não me deixa sair dessa tristeza que sempre me acompanha.
Meu pai tinha um irmão, vou tratá-lo por Júnior, não sei se ele morreu nunca mais o vi desde a morte do meu avô em 1998, mas era um imbecil ou idiota dentro da classificação psiquiátrica para QI's. Meu asco por ele nasceu quando ainda um menino, acho que devia ter uns 5 ou 6 anos e estávamos no cinema assistindo ao clássico de Walt Disney, "Branca de Neve e os Sete Anões", quando então pedi para ir ao banheiro e ele me acompanhou e começou a me bulinar, era fixado no meu pênis, mas nunca fez mais nada além de se prestar a me levar ao banheiro. Como aquilo era novo pra mim e ele dizia que era um segredo e me ameaçava se contasse, fiquei com medo e com vergonha, escondi isso de todos e de mim mesmo, até que fui morar definitivamente com meus avós aos 19 anos. Essa história estava entalada na minha garganta. Depois dos 8 anos, ele nunca mais tentou nada, mas eu não esqueci. Um dia, estávamos a sós e eu puxei o assunto., ele ficou com medo, mas eu dei a entender que não valorizava o assunto, só queria saber os detalhes, pois não me lembrava muito bem de tudo. Quando ele se sentiu a vontade e relatou seu comportamento nojento, enchi-lhe a cara de porrada e disse que isso era um segredo só nosso e que se alguém descobrisse o motivo dos machucados eu encheria sua cara de porrada outras vezes.
Resta meu pai, Fernando, o cara mais filho da puta que eu já conheci na vida. Egoísta ao extremo, não quis casar com minha mãe, só o fez forçado pelos meus avós e mesmo assim, obrigou minha mãe a abortar duas vezes, quer dizer três, só que na minha vez ela negociou a minha gravidez com a minha avó. Incapaz de dar carinho e atenção para mim, comparecia com o básico e sumia de casa as sextas, só reaparecendo na segunda.
Por causa dessa vida instável cheia de altos e baixos, uma hora jurando amor para minha mãe, outra desfilando com a amante na porta de nossa casa, uma hora oferecendo todo o conforto, noutra deixando-nos passar necessidades, vi minha família se fragmentando e o esteio eram só os meus avós.
Cresci desconfiado de que alguma coisa de muito ruim envolvia a minha história, mas não stinha certeza de nada, faltavam muitas peças para montar esse terrível quebra-cabeça, até que, há dois anos, descobri todo o meu passado. Todas as peças que faltavam,surgiram e se encaixaram. Meu pai estava hospitalizado, mas ninguém se apresentava para cuidar dele, ninguém o visitava, nem mesmo sua companheira. Então me fiz presente e passei a cuidar de tudo para tentar lhe dar um pouco de dignidade no fim da vida, até mesmo suas fezes eu limpei.
Foi quando do nada, ele começou a me contar sobre a sua vida, sem poupar-me os detalhes mais sórdidos. Curioso com o relato frio que ele me fazia, parei minha vida e me internei junto com ele. Não ia mais para casa, queria ouvir tudo o que ele tinha a dizer. Talvez tivesse sido melhor para ambos se eu não ouvisse. No fim do quinto dia eu já não agüentava mais olhar para ele. Liguei para a sua companheira, afinal era ela quem deveria cuidar de tudo e disse que precisava me afastar. Nunca mais o vi e sempre que me lembro, sinto raiva.
Por hoje finalizo. Não estou me sentindo bem. Meus pensamentos estão para baixo, amanhã ou outra hora eu volto e falo um pouco da minha infância. Lembranças que só agora me mostram o quanto eu sofria e que só pioraram meu quadro por não ser diagnosticado e tratado.
Gostaria muito que vocês conversassem comigo. Acredito que isso me ajudará a enfrentar essa jornada e a me soltar mais.
Um abraço.
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