Quando eu nasci, meu pai não estava presente, tinha abandonado minha mãe para viajar com mais dois amigos para Portugal. Minha irmã já tinha nascido, mas minha mãe já havia feito dois abortos a pedido do canalha, com a anuência dela, é claro. Minha irmã só nasceu porque minha avó paterna disse que a sustentaria e eu só nasci porque meu avô paterno disse que me sustentaria. É bem verdade que meus avós também sustentariam nossos irmãos se soubessem que minha mãe os estava esperando, mas tanto ela quanto meu pai preferiram matá-los, só revelando o crime depois do fato consumado.
Meus pais eram muito egoístas para pensarem nos outros ou no caso, nos filhos, mas depois eu falo dela, agora preciso contar sobre ele. Meus avós sempre tiveram uma situação financeira bastante confortável e isso fez do canalha um vagabundo, sem responsabilidades. Antes da minha mãe ele já havia engravidado outras garotas e obrigado-as a abortarem. Minha mãe foi só mais uma na sua lista, mas única que casou de papel passado e, mesmo vivendo com ela, o mau caráter engravidou outras mulheres, fazendo da nossa casa um inferno, com suas amantes ligando e desrespeitando minha mãe ou mesmo abordando a mim e a minha irmã em parquinhos, enquanto estávamos sob os cuidados de uma babá.
Bem, ele pagou um preço alto, depois que ele e minha mãe se separaram por causa de uma dessas mulheres, com quem ele foi viver, ela resolveu ter o filho e o garoto nasceu autista. Não acredito em castigo, até porque esse deus teria que ser muito filho da puta pra castigar alguém deixando nascer uma criança com problemas mentais. Esse deus não existe, só está na cabeça das pessoas.
Nunca tive meu pai regularmente na minha casa, nem nos finais de semana, quando ele sumia com suas amantes me tendo-se em escolas de samba. Talvez por isso, eu não suporte carnaval e torça para que aconteça o que aconteceu este ano, quando os galpões das escolas de samba do Rio de Janeiro queimaram, ainda bem que sem vítimas, que isso fique claro. Nada tenho contra as pessoas, mas sim contra essa manifestação que faz as pessoas se transformarem.
Nunca fui ao cinema com meu pai, nunca assisti a um jogo de futebol nos estádios ou mesmo na televisão, nunca o tive ao meu lado para brincar, estudar ou nos meus aniversários, para tudo era meu avô quem se fazia presente, o homem que eu mais amei e amo na minha vida e que sempre estava comigo, meu maior e melhor amigo e que só de falar nele, ainda choro.
Do meu pai eu só lembro que as três vezes que ficamos mais juntos, foi quando levei três surras e tive que ficar no mesmo quarto virado para a parede enquanto ele conversava com meu tio que debochava de mim. Mas mesmo assim eu o amava, acho que tem a ver com a Síndrome de Estocolmo, quando a vítima se apaixona pelo seqüestrador. O que eu sei é que o meu castelo de areia só desmoronou um pouco antes de ele morrer.
Na minha adolescência ele também nunca esteve presente, nem nunca me procurou ou ofereceu-me qualquer coisa despretensiosamente, nem poderia, não existia afeto dentro daquele homem, só interesse. Para tudo e todas as suas relações tinha que haver uma troca, nada do que fazia era gratuito.
Lembro que minha mãe teve a coragem de fazer com ele exatamente o que a mãe dos meus filhos fez comigo. Levou-me ao fórum para depor contra meu pai, mas tudo o que eu consegui fazer, foi correr para abraçá-lo e dizer que o amava, para desespero da minha mãe que viu seu plano de prejudicá-lo ruir.
Um mês depois sem contato comigo, ele foi ao meu colégio para pagar os meses atrasados e quando eu o avistei corri em sua direção gritando seu nome, mas ele fingiu que não me viu ou me ouviu e saiu em disparada com seu carro. Aquilo foi terrível e, dali pra frente minha relação com ele mudou drasticamente. Já não o amava mais, ou estava muito magoado, mas mesmo assim o respeitava, afinal ele era o meu pai. Nossa relação, contudo, ficou distante, burocrática, como ele não ligava, eu também passei a não procurá-lo e quando nos encontrávamos conversávamos apenas sobre amenidades.
Quando ele arrumou uma amante nova, que gostava de malhar, me procurou e disse que achava que eu devia fazer educação física que ele me bancava, eu só tinha vinte e um anos e mal conseguia pagar minha faculdade de administração com o meu salário de bancário, mas topei; achei que podia ser o início de uma reaproximação, mas a amante morreu em poucos dias depois que eu já estava cursando a faculdade de educação física e ele simplesmente parou de pagar. Como não era de abandonar o barco e estava namorando minha primeira esposa que também fazia educação física, dobrei no trabalho e consegui pagar as duas faculdades. Isso de certa forma me ajudou, pois no trabalho eles viram que eu topava dobrar e logo ganhei uma função de confiança.
Quando me separei desta mulher por traição, não tive o apoio de ninguém. Minha avó morreu no dia do casamento e alguns meses depois, descobri que era traído por ela. Me separei sem levar o problema para ninguém, pois não queria preocupar meu avô. Mas a notícia corre frouxa. Só que nem ele nem minha mãe deram as caras. Foi um período difícil que enfrentei sozinho.
Seis anos depois, me aproximei novamente do meu pai, quando casei novamente e meus filhos nasceram, achei que isso poderia sensibilizá-lo. No entanto, não era uma relação como a que eu tive com o meu avô, infelizmente, por isso me desdobrava para oferecer aos meninos todo o amor do mundo. Ele não procurava os garotos, nunca deu nada para os netos, nunca teve esse prazer, mas não deixava de encher a cara com os vagabundos dos amigos de samba que tinha feito ao longo da sua vida marginal.
Ele trabalhava, é verdade, nunca deixou faltar nada material em casa, mas só tomou jeito na vida quando meu avô decidiu jogar duro com ele. Mesmo assim, suas conquistas no trabalho se deram por negociatas, contratos escusos. Não posso deixar de mencionar sua ligação com bicheiros e toda a corja de maus elementos que o faziam se sentir um cara importante no meio de tanta gente desqualificada, mal educada e sem caráter.
Não procurar os netos era o que menos importava, já que na minha vida toda, ele nunca me procurou e foi capaz de me internar em um colégio da noite para o dia, aproveitando que minha mãe tinha sido internada em uma clinica psiquiátrica, depois que surtou, por saber que ele mantinha um relacionamento com a mesma amante da juventude, sua maior rival. Um covarde! Nunca me esqueço de que, ao deixar minha irmã primeiro que eu em outro colégio interno, ela olhou pra ele e disse que ele era um canalha. Fomos abandonados sem que, nem mesmo nossos avós, soubessem onde estávamos.
Bom, quando depois de todos os excessos cometidos durante a vida resultaram em um câncer, ele finalmente caiu, mas ninguém estava lá para cuidar dele, nenhum amigo do samba, nenhum bicheiro, nem seus pais que certamente morreram envergonhados pelo filho que tiveram e que deram educação e amor que eu sou testemunha; nem mesmo a atual companheira lhe acompanhava e se omitia quando tinha que lhe dar os remédios na hora certa e só lembrava-se de me chamar para levá-lo ao médico um dia antes, como se quisesse que eu dissesse que não podia, mas eu sempre dava um jeito. Lembram da minha consciência? Pois é, eu preciso estar sempre de bem com ela.
Conforme a doença foi piorando, ele também foi ficando com Alzheimer e Diabetes. Orgulhoso que era não queria andar de cadeira de rodas me obrigando a carregá-lo no colo. Quando esteve internado duas vezes porque teve crise de diabetes, eu o socorri nas madrugadas sob o olhar curioso de sua companheira que parecia querer torturá-lo demorando para chamar o socorro, ou dar as informações que ajudariam os enfermeiros. Muitas vezes eu cheguei a casa dele e o vi sujo de fezes e urina, pois ela dizia que sentia nojo de trocar suas fraldas.
Tratei de todas as internações e me internei com ele para não deixá-lo sozinho. Cada um dava uma desculpa para não visitá-lo. A própria companheira só o visitou uma vez em 20 dias e dos amigos só um compareceu, é o mesmo que hoje se apresenta como advogado da companheira para tratar do inventário.
Como pagamento por cuidar dele, limpar suas fezes, trocar suas fraldas, carregá-lo no colo, doar meu sangue para as suas transfusões, servi-lo como motorista particular ele resolveu contar a história da sua vida para mim, sem que eu tivesse pedido que falasse. Canalha que era, precisava dar sua última estocada e se sentir por cima. Não poupou-me de nada e ainda sorria e bancava o fanfarrão falando dos abortos, do abandono, do internato, da sua vida dissoluta.
Agüentei firme, mas quando ele acabou me despedi sem fazer alarde. Liguei para minha irmã e para a companheira dele e disse que elas assumissem dali pra frente. Não agüentava mais sequer olhar para a cara dele. Vomitei no banheiro do hospital, chorei muito por tê-lo como meu pai, por ser um desgraçado de ter nascido de duas pessoas tão horríveis, de não ter meu avô e minha avó por perto. Quis morrer, mas não podia, existiam meus filhos. Nessa época eu ainda os via.
Seu fim foi triste. Acabou sozinho em um hospital de quinta categoria, abandonado pela companheira que está respondendo a um processo por abandono de incapaz que minha irmã está cuidando para que ela seja presa ou perca todos os direitos como herdeira. Não fui ao enterro, não quero saber de nada ou ninguém, já disse que o que sair do inventário eu vou doar para os garotos. Se ele não me deu em vida, eu não quero nada dele depois de morto. Só quero esquecer, esquecer, esquecer...
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Minha historia e a sua são parecidos, só que não pretendo cuidar como vc...mas pretendo visitar em um asilo
ResponderExcluirO canalha do meu pai é exatamente igual.
ResponderExcluirNossas histórias são praticamente iguais,impressionante.